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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Graça Foster e a Petrobras além da propaganda

Há coisa de dois ou três dias, o inteligente e divertido novelista Aguinaldo Silva reclamava no Twitter, em tom acertadamente debochado, do dinheiro que perdeu com as ações da Petrobras. Não só ele. Os investidores não profissionais — gente que vive do jogo do sobe e desce no mercado — tem se espantado. A nova […]

Por Reinaldo Azevedo 27 jun 2012, 21h37 • Atualizado em 31 jul 2020, 08h30
  • Há coisa de dois ou três dias, o inteligente e divertido novelista Aguinaldo Silva reclamava no Twitter, em tom acertadamente debochado, do dinheiro que perdeu com as ações da Petrobras. Não só ele. Os investidores não profissionais — gente que vive do jogo do sobe e desce no mercado — tem se espantado. A nova presidente da Petrobras, Graça Foster, corre o risco de ser vista como o lado mau da novela Petrobras, mas ela pode estar mais para uma mocinha, ainda que não se note à primeira vista. Mas também é uma dessas heroínas pós-Gloria Magadan, com suas culpas no cartório.

    O Estadão desta quarta publicou um ótimo editorial a respeito da Petrobras. Leiam. Volto em seguida.

    Hora da verdade na Petrobrás

    Há duas grandes novidades no plano de negócios anunciado pela presidente da Petrobrás, Graça Foster, para o período de 2012 a 2016. Em primeiro lugar, as novas metas e os cronogramas são mais realistas que os apresentados nos planos anteriores. A produção nacional de petróleo, por exemplo, deverá chegar a 2,5 milhões de barris diários em 2015, meio milhão abaixo da previsão adotada até o ano passado. Em segundo lugar, o novo planejamento consagra uma visão crítica dos padrões da administração passada e implantados no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde o início da gestão petista, como indicou a presidente da empresa, a Petrobrás jamais conseguiu alcançar as metas fixadas. Mais de uma vez, durante sua exposição, ela mencionou o apoio do “controlador” – isto é, do governo Dilma Rousseff – aos novos critérios.

    Uma das condições agora levadas em conta é a convergência dos preços cobrados internamente com os preços internacionais dos combustíveis. Esse ponto foi ressaltado tanto pelo diretor financeiro, Almir Barbassa, quanto pela presidente da estatal. O recém-anunciado aumento dos preços da gasolina (7,8%) e do óleo diesel (3,9%) ficou abaixo do considerado necessário por muitos analistas. A diferença foi mal recebida no mercado de capitais e segunda-feira as ações da empresa caíram mais de 8% na bolsa, queda maior que a de novembro de 2008, no pior momento da crise financeira. Prevaleceu entre os investidores, mais uma vez, a visão de curtíssimo prazo. Se a nova administração agir de acordo com os critérios indicados na apresentação do plano, o crescimento da Petrobrás será mais seguro do que seria com os padrões dos últimos nove anos.

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    Para realizar os investimentos de US$ 236,5 bilhões previstos no plano de negócios a empresa precisará de preços mais realistas e, portanto, novos aumentos serão necessários, como deixaram claro os diretores da estatal. O compromisso com resultados também foi reforçado. Isso explica a revisão de cronogramas, como o do complexo petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e de outras refinarias.

    Pela nova previsão, a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, só começará a funcionar em 2014, com atraso de um ano am relação à data prevista no último planejamento. O custo passará de US$ 13,4 bilhões para US$ 17 bilhões. A associação negociada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o colega venezuelano, Hugo Chávez, até agora deu em nada. Nenhum centavo foi pingado pela PDVSA. A presidente Graça Foster mantém, segundo afirmou, a esperança de ver concretizada a participação venezuelana. No entanto, ela mesma descreveu esse projeto como um exemplo a ser analisado para nunca se repetir.

    Erros desse tipo só serão evitados, no entanto, se o governo brasileiro abandonar os padrões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele usou a Petrobrás para seus objetivos políticos no Brasil e no exterior. A aliança com o presidente Chávez é parte dessa história, assim como sua reação mansa e cordata quando instalações da empresa foram ocupadas militarmente na Bolívia.

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    Curiosamente, a nova presidente da Petrobrás defende a política de conteúdo nacional para os equipamentos comprados pela empresa. Essa política, segundo ela, atende às necessidades da empresa. Os riscos, no entanto, são tão evidentes quanto o erro de fazer da Petrobrás, uma das maiores petroleiras do mundo, um instrumento de política industrial. Em março, a presidente Graça Foster declarou-se preocupada com os atrasos na entrega de navios encomendados ao Estaleiro Atlântico Sul e com problemas tecnológicos.

    O primeiro navio encomendado a esse estaleiro, o petroleiro João Cândido, foi lançado pelo presidente Lula em maio de 2010. Quase afundou, passou por reformas e só foi entregue dois anos mais tarde. Política industrial baseada em favorecimento e voluntarismo dá nisso. Se reconhecerem esse fato, a presidente Dilma Rousseff e sua amiga Graça Foster talvez consigam se livrar – e livrar o País – de alguns dos piores costumes consagrados no governo anterior, como o aparelhamento da administração, o voluntarismo, o favorecimento a grupos econômicos e a mistificação populista.

    Voltei
    Começo assim: a questão verdadeiramente de fundo nessa história toda jamais será discutida, todos sabemos: por que precisamos de uma Petrobras com as características que ela tem hoje? A boa resposta é esta: não precisamos. Vejam aí: o país que tem uma das gasolinas mais caras do mundo está com seus preços… defasados! Mas não vou perder meu tempo malhando em ferro frio. Quem sabe meus tataranetos já não tenham mais essa empresa nas costas. Se Marina Silva estiver certa, tiraremos energia da Árvore da Vida, como em Avatar… Adiante.

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    O que o Estadão relata é uma tentativa de ter uma Petrobras um pouco mais transparente, sem os números maquiados da era Lula, quando a empresa ficou sob o comando de um prosélito como José Sérgio Grabrielli, hoje lotado no governo da Bahia e desde já pré-candidato do PT à sucessão de Jaques Wagner. Quantas foram as vezes que a máquina petista se voltou contra qualquer um que ousasse fazer indagações sobre a verdade dos números da Petrobras? Os críticos ou simples indagadores eram tratados como inimigos da pátria, acusados de defensores da “privatização” da empresa — que, note-se, é de capital misto. Mesmo assim, foi claramente usada para fazer política.

    Aplauda-se a decisão de Graça Foster de tentar trabalhar com números mais realistas. E a fantasia não era pequena, não! Até o ano passado, estimava-se que a produção diária de petróleo seria de 3 milhões de barris em 2015. Estamos praticamente no segundo semestre de 2012. Essa expectativa foi reduzida em estratosféricos 500 mil barris, quase 20% a menos. Não é uma correção trivial. Esse tipo de coisa, todo mundo sabe, não obedece à lógica do chute, não! Há gente competente para fazer esse tipo de cálculo. Mas não há cálculo que sobreviva à obstinação da má fé política.

    Graça Foster é quem é e vem de onde vem — daí não ser só a heroína do bem. Insiste na tolice do tal conteúdo nacional, que, de resto, visto na ponta do lápis, é menos verdadeiro do que se anuncia. Implica, no entanto, desembolso extra para uma empresa mista, que tem de ser gerida segundo critérios profissionais, que excluem patriotadas. O navio nacionalista do Apedeuta quase afundou (ver próximo post).

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    As coisas estão ainda um tanto confusas. O preço do combustível produzido pela Petrobras foi corrigido, mas não na bomba, para o consumidor. Isso significa que o consumo de gasolina e óleo diesel está sendo subsidiado, o que já está gerando confusão na cadeia produtiva do etanol. Caiu bastante a frota movida a álcool no país que proclama seus compromissos ambientais…

    Aos poucos, os improvisos, contradições e mistificações da era Lula vão aparecendo. Ficarão por aí, produzindo efeitos na economia por décadas. No próximo post, trato do navio apedeuta do apedeuta.

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