EUA: quando um país é vítima de suas virtudes
Se a Al Qaeda ataca as Torres Gêmeas, a culpa, como sabemos, é dos americanos. Se os terroristas iraquianos matam centenas de outros iraquianos, a culpa, é óbvio, é dos americanos. Se um psicopata sul-coreano mata 32 pessoas numa universidade, a culpa, é inescapável dizer, é dos americanos. Um americano sempre sabe por que está […]
Esse é o fundo regressivo, quase místico, subjacente a boa parte das reportagens que tentam entender por que fatos como aquele acontecem. E as perguntas não param, muitas delas enviadas, de boa fé, para este blog: “Mas por que esse tipo de ocorrência é mais comum nos Estados Unidos?” Isso me lembra uma vaga noticiosa muito influente no fim dos anos 70 e início dos anos 80: dava conta de que o número de suicídio nos países nórdicos era proporcionalmente muito maior do que em outros países. E não faltava quem visse naquilo uma espécie de tédio da abastança. Era como se, não tendo mais com que se ocupar, aquela gente se voltasse, então, para misérias íntimas. À frieza nórdica, não faltava quem opusesse o calor do nosso Carnaval. O corolário era o seguinte: “Brasileiro é pobre, mas, ao menos, é feliz”. É o orgulho que temos do nosso ziriguidum, do nosso balacobaco, do nosso telecoteco.
Cada povo, num dado momento de sua história, é fato, vive e morre à sua maneira. Em que medida os nossos psicopatas se confundem com a nossa pobreza? Não sei. Todas as tentativas de explicar o que seria a gênese dos massacres nos Estados Unidos esbarram naquela esfera de preconceito e antiamericanismo rombudo a que me refiro no primeiro parágrafo. Peguem os adolescentes assassinos de Columbine. Sua história em nada se parece com a de um imigrante sul-coreano que decide matar colegas e professores — a não ser pelo quase metódico planejamento da ação — o que é próprio de psicopatas. A história do estrangeiro desintegrado parece fácil demais, não é mesmo? E falsa. Lá estava ele, dividindo a universidade com aqueles que, no fundo, repudiava. Discriminado?
Se um traço da cultura americana tem relevância na tragédia, se alguma antropologia deve ser evocada em socorro daqueles que pretendem encontrar algum porquê além da óbvia psicopatia dos assassinos, um bom começo é pôr de lado o rancor. Eu diria que em poucas sociedades, e isto me parece relevante, crimes como o da universidade de Virgínia Tech chocariam tanto e teriam tamanha repercussão. Um presidente brasileiro, por exemplo, não é convocado a falar quando 19 pessoas são assassinadas num só dia — porque o dia seguinte reservará outras 19; num prazo de 10 anos, são perto de 500 mil assassinados só com armas de fogo. Ficamos um pouco chocados, mas logo passa. Porque vamos nos habituando à tragédia, racionalizando os seus motivos: violência urbana, impunidade, pobreza, narcotráfico etc. Causas e conseqüências vão-se misturando no nosso discurso, e vamos ficando calejados, achando tudo, de algum modo, normal.
Nada mais fere a nossa individualidade. Nada mais fere a nossa família. Nada mais fere a nossa cultura. Nada mais afronta o nosso padrão. Nada mais mancha o nosso estilo de vida. Não o temos. Comportamo-nos como sobreviventes de uma guerra civil. Felizmente para eles, com os americanos, a coisa não se dá assim. Nos EUA, a inviolabilidade da individualidade é um dado da vida cotidiana. Isso a que se chama, de forma crítica, caricata até, “egoísmo americano”, é um dos pilares da sociedade. Uma ocorrência bárbara como as 32 mortes choca, constrange, deixa o país em transe.
E tem início, então, uma reação — aí, sim — que é o paraíso do psicopata em busca de notoriedade, ainda que póstuma. A tragédia mesmeriza a sociedade e enfeitiça a mídia. No caso de Cho Seung-hui, tanto pior. Ele havia preparado um verdadeiro espetáculo para ser apresentado depois da carnificina. E, vejam só, a sua vontade foi, em boa parte, cumprida. Até que o bom senso tomasse conta sobretudo das televisões e se percebesse que o roteiro mórbido do assassino estava sendo meticulosamente seguido. Entendam: não estou advogando nenhuma forma de censura. O que me pergunto é se era mesmo necessário levar ao ar as gravações feitas por Seung-hui. Não colaboram com a investigação (afinal, o material é de interesse da polícia, que tem acesso a ele); não ajudam a sociedade a se proteger de casos semelhantes; não servem para responder às indagações de uma população perplexa.
Esta sociedade agredida no que tem de mais virtuoso — a sua crença no futuro e, por que não?, na racionalidade, no progresso e no individualismo — fica especialmente exposta a esse tipo de ação. Na medida em que reage, dando ao escândalo humano a dimensão que ele de fato tem, expõe-se ainda mais. Portanto, se houver alguma razão tipicamente americana que explique um massacre como o que se viu (ou uma série deles), ela é, estejam certos, evidência de uma virtude.







