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ESCOLA DEPREDADA. E O JORNALISMO?

Uma briga entre duas estudantes detonou atos de vandalismo na Escola Estadual Amadeu Amaral, em São Paulo, com depredação do prédio. Trata-se de uma das escolas estaduais com a melhor infra-estrutura da cidade. A PM teve de ser acionada para conter os vândalos, e Laura Capriglione, da Folha, foi acionada para, como de hábito, transformar […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 18h36 - Publicado em 13 nov 2008, 05h23
Uma briga entre duas estudantes detonou atos de vandalismo na Escola Estadual Amadeu Amaral, em São Paulo, com depredação do prédio. Trata-se de uma das escolas estaduais com a melhor infra-estrutura da cidade. A PM teve de ser acionada para conter os vândalos, e Laura Capriglione, da Folha, foi acionada para, como de hábito, transformar os culpados em vítimas. Vi primeiro o caso na TV e comentei com Dona Reinalda: “Amanhã aparecerá nos jornais algum antropólogo dizendo que, de algum modo, a culpa é nossa e do neoliberalismo”. Bingo? Quase.

Na mesma Folha, um professor especialista, Sérgio Kodato, explica assim o caso: “Não se trata de simples vandalismo. São atitudes reativas, um grito contra o modelo que os incomoda. Para os alunos fazerem isso, deve ter tido um histórico de escola ruim, deteriorada e maltratada. É como uma rebelião, como nas ‘boas’ épocas da Febem.” Entenderam? É estranho que o Brasil ainda não tenha feito uma revolução já nem direi socialista, mas baguncista mesmo. Afinal, devem ser muitos os pobres insatisfeitos, não é?

Kodato até toca em alguns aspectos corretos, como a progressiva perda de autoridade do professor, os malefícios da progressão continuada, a necessidade da revolução tecnológica — quanto vai custar? — etc. Mas é óbvio que nada disso explica o que aconteceu na escola Amadeu Amaral. O que se viu ali foram atos de banditismo. E o estado tem de punir os bandidos. É tão simples. Não podem ser enviados à cadeia, os menores ao menos, mas podem ser expulsos. Kodato erra feio quando diz que o estado trata essa gente como “bandidinhos”. Falso! O problema é que o estado NÃO os trata como bandidinhos. Nem a imprensa.

No texto de Laura Capriglione, cheio de pequeninos truques de linguagem, vê-se que a versão que parece mais confiável é, claro, a dos estudantes que acusam, pasmem!, a truculência policial. Então, depois de tudo lido, ficamos sabendo que o sistema de educação não funciona mesmo; que aqueles brutamontes que depredaram a escola e se estapearam são umas pobres vítimas sociais; que, segundo o professor, precisam de mais tecnologia… Não, professor! Se eles tiverem a mesma moral e se as autoridades, os jornalistas e os especialistas continuarem a passar a mão da cabeça deles a cada ato violento, em vez de jogar carteiras andar abaixo, jogarão telas de plasma. Não sei se fui claro.

Poderia terminar por aqui. Mas há mais uma coisa. Leiam agora este trecho de outro texto sobre o assunto, este de Bruna Saniele. O título é este: “86% das escolas de SP relatam violência”. Leiam com atenção. Volto depois:

Pesquisa realizada pela Udemo (Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo) em abril de 2008 revela que 86% de um total de 683 escolas estaduais entrevistadas relataram algum tipo de violência ocorrida em 2007. O sindicato enviou o questionário para 5.300 escolas de todo o Estado.
O percentual de violência relatado é similar ao obtido pela Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de SP) em pesquisa realizada em 2006. Na época, 87% dos professores entrevistados revelaram saber de casos de violência ocorridos na sua escola.
(…)
A Udemo realizou pesquisa similar sobre violência em 2002 e 2000, com 300 e 496 escolas estaduais, respectivamente. De 2002 para 2007, as brigas envolvendo alunos passaram de 78% para 85%. O número de escolas que sofreram pichações passou de 40% para 60% e os danos a veículos passaram de 28% para 62%.

Voltei
Notaram algo de estranho além de terem ficado sabendo que existe um troço chamado Udemo? Eu notei. O título diz que 86% das escolas relataram violência. Foram 86% das 683 que responderam, mas a base que recebeu o questionário é de 5.300. Assim, arredondado os números, relataram atos de violência 587 escolas — ou 11% das 5.300, não 86%.

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Mas o meu fascínio ainda não acabou. Notem que é preciso demonstrar que a violência é crescente, certo? Bem, então que se peguem os dados de 2000 e 2002. Segundo se entende, os números que aparecem ali são de 2002. Naquele ano, as brigas envolvendo alunos ocorreram em 78% das escolas pesquisadas; agora, em 85%.

Santo Deus! A Folha tem o melhor instituto de pesquisas do país. Não é possível que isso não impregne a cultura média do jornal. Pergunto:
– também em 2002 os questionários foram enviados para 5.300 escolas?
– considerando que não se está trabalhando por amostragem — já que os questionários são dirigidos a todas as escolas —, que sentido faz comparar um resultado com outro? 300 com 683?

A violência nas escolas existe e tem de ser coibida. Com expulsão, Polícia, lei, essas trivialidades que o mundo civilizado reserva a bandidos, mas que, no Brasil, são consideradas propostas reacionárias. E a escola tem de melhorar brutalmente, sim, professor Kodato: com mais tecnologia, fim da progressão continuada, professores mais preparados etc. Uma das desgraças brasileiras é achar que se pode oferecer professor a quem precisa de Polícia.

De resto, os comandantes dos jornais, sem distinção, deveriam refletir um pouco sobre a qualidade da cobertura dos seus cadernos de cidades. Às vezes, eles se parecem com uma briga de estudantes do Amadeu Amaral.

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