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E depois do abismo?

(leia primeiro o post abaixo) A exemplo do que se deu no caso Terri Schiavo, confesso que me choca menos o fato em si — compreendo que tantos considerem que aquele estado em que vivia Eluana Englaro não pudesse ser considerado exatamente vida, embora discorde — do que a cultura da morte que ele estimula […]

Por Reinaldo Azevedo
Atualizado em 31 jul 2020, 18h11 - Publicado em 9 fev 2009, 19h43
(leia primeiro o post abaixo)
A exemplo do que se deu no caso Terri Schiavo, confesso que me choca menos o fato em si — compreendo que tantos considerem que aquele estado em que vivia Eluana Englaro não pudesse ser considerado exatamente vida, embora discorde — do que a cultura da morte que ele estimula e suas manifestações de caráter obviamente político.

Na Itália, como nos Estados Unidos, os que se opuseram ao desligamento dos aparelhos foram identificados com as forças, como é mesmo?, “reacionárias”. E, desta feita, com mais facilidade, se pronunciou o adjetivo mágico, que cessa todo o debate: “fascistas!” Afinal, trata-se da Itália, e Berlusconi se opunha à cessação da alimentação artificial — se ele era contra, então os “progressistas” devem ser a favor.

Deu-se mais um passo na cultura que torna a vida humana dependente de um conjunto de regras práticas, pragmáticas, funcionais. É como se perguntássemos: “Serve para alguma coisa? Não? Então está feito”. E acreditem: talvez se pudesse fazer um debate melhorzinho. Os casos Terri e Eluana não se encaixam na definição de eutanásia, mas de ortotanásia, ou morte natural, com a suspensão, mediante autorização da família, de procedimentos que estendam a vida de um paciente considerado inviável.

O debate moral e ético é extensíssimo. Consta que João Paulo 2º, por exemplo, foi explícito na recomendação de que não se usassem meios artificiais que estendessem a sua vida. É possível. No caso de Eluana, à diferença de Terri, não havia quem se dispusesse a cuidar dela. A própria família queria o desligamento dos aparelhos — a da americana se dispunha, como escrevi à época, a zelar pelo seu “vegetal”, mas o ex-marido, que detinha os direitos legais, não abria mão de sua prerrogativa…

O que há de comum, insisto, nos dois casos é a saliência da cultura da morte e a nonchalance com que se ignora uma questão de princípio: quando é que uma vida deixa de ser vida para ser outra coisa, da qual se pode dispor? Há tanta gente com certezas absolutas a respeito disso, não é? Eu, confesso, sou mais modesto: não as tenho.

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Eluana está morta. Que direito se vai comemorar? Assistiram ao filme Menina de Ouro (Million Dollar Baby), do excelente Clint Eastwood. Quando o ex-boxeador e treinador Frankie Dunn (o próprio Clint), um irlandês católico, pede ao padre autorização para desligar os aparelhos que mantêm viva Maggie Fitzgerald (Hilary Swank, estupenda no filme), ouve uma frase: “Não faça isso; você vai mergulhar num abismo do qual nunca mais vai sair”. No caso, ela estava consciente e pedia isso ao amigo.

Ele não ouve o padre. E nunca mais se ouve falar dele. Não ficamos sabendo o que vem depois do abismo.

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