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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

DÉBORAH KELLY NA PASSARELA

A promotora Déborah Kelly, do Ministério Público do Estado de São Paulo, entra na minha galeria dos nomes inesquecíveis. Talvez não fosse assim ainda que ela se chamasse Gislaynne Stephany ou Pamela Suelen… Pamela Suelen? Como sou antigo! Boa parte dos leitores nunca nem deve ter ouvido falar de Dallas e do terrível J.R. Ewing, […]

Por Reinaldo Azevedo 13 abr 2009, 06h05 • Atualizado em 31 jul 2020, 17h50
  • A promotora Déborah Kelly, do Ministério Público do Estado de São Paulo, entra na minha galeria dos nomes inesquecíveis. Talvez não fosse assim ainda que ela se chamasse Gislaynne Stephany ou Pamela Suelen… Pamela Suelen? Como sou antigo! Boa parte dos leitores nunca nem deve ter ouvido falar de Dallas e do terrível J.R. Ewing, naqueles tempos em que o capitalismo era mau como um pica-pau… Vou me lembrar de Déborah Kelly por suas ações, é claro. Porque ela se lembrou de corrigir uma brutal injustiça no Brasil: quer que o São Paulo Fashion Week adote a política de cotas raciais, a exemplo do que ocorre nas universidades brasileiras (ver texto acima).

    Explica-se: no Ministério Público Estadual, Gislaynne Suelen pertence a um tal Grupo de Atuação Especial de Inclusão Social. Ah, bom… Não vendo nenhuma outra “discriminação” ao alcance da notícia, escolheu o megabadalado SPFW. Como se nota, Pamela Gislaynne não errou a mão.

    Em entrevista à Folha deste domingo, ela afirma: “O percentual de modelos negros no evento [em torno de 3%] é bem menor que o de brancos. O objetivo da Promotoria é fazer um acordo de inclusão social. Estabelecer um número mínimo de modelos negros a desfilar”. Eis aí. Quando um justo fala, os injustos devem baixar as orelhas, não é? Em seguida, o repórter da Folha lembra: “No Brasil, 49,7 % da população é composta por negros e pardos, segundo o último censo do IBGE (de 2007)”. Ele ainda corrigiu parcialmente a versão oficial, segundo qual esses 49,7% são é negros mesmo — a palavra “pardos” está fora da mentira oficial; é só um termo que serve à autodeclaração nas entrevistas do IBGE.

    Antes que trate do absurdo propriamente dito, pergunto: nos 3% da conta da promotora estão só os, como chamarei?, “negros negros”, ou estão também os “negros mestiços”? Um dos truques do racialismo consiste no seguinte: para demonstrar que os negros são maioria no Brasil, eles somam aos 6% desse grupo os quase 44% de mestiços (de várias tonalidades de pele). Na hora de provar a discriminação numa determinada atividade, aí só contam os “negros negros”.

    Por que Kelly Gislaynne não abre um procedimento no próprio Ministério Público para investigar racismo? Quantos são os negros por lá? Ela e todo mundo diriam que não basta ser negro para ser promotor. É preciso também ter feito uma carreira que habilite o profissional para a função; há um concurso. E daí? Se uma universidade pode dar pontos especiais para admitir um estudante negro, o Ministério Público também pode. Estariam os modelos negros dando sopa por aí, devidamente dispensados pelo SPFW em razão de seu racismo? Duvido! Das pessoas ouvidas pela reportagem, um profissional da área vê, sim, discriminação, embora seja contrário a cotas: Hélder Dias de Araújo. Hélder é dono de uma agência de modelos. De uma agência de modelos negros. Entendo.

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    As gordas e os gordos não merecem a atenção da promotora? E os baixinhos? E os carecas? E os míopes? Já imaginaram a revolução que seria um desfile com cotas para mulheres pesando entre 60 e 65 quilos? O Ministério Público não existe para inventar leis. Tem de agir para reparar direitos agravados e para que os transgressores sejam punidos. E seu limite são as leis que existem, não as que considera que deveriam existir. O Ministério Público Estadual não é casa legislativa.

    O país passou a flertar abertamente com ações racistas sob o pretexto de fazer justiça racial. Para os tolos, infelizmente, parece não haver cotas. Tem-se a impressão de que, como é mesmo?, “tá tudo dominado”.

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