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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

De trabalhadoras e prostitutas

Desculpem-me dar uma de pobre orgulhoso. É que a TV estava ligada até agora há pouco. Já desliguei. Ouvi uma chamada do “Profissão Repórter”, conduzido por Caco Barcellos, da Globo. Se não for literal, é quase: “A avó que se prostitui para sustentar a família”. E a esforçada senhora, entendi, vai conceder uma entrevista. Sou […]

Por Reinaldo Azevedo 9 out 2013, 07h07 • Atualizado em 31 jul 2020, 05h14
  • Desculpem-me dar uma de pobre orgulhoso. É que a TV estava ligada até agora há pouco. Já desliguei. Ouvi uma chamada do “Profissão Repórter”, conduzido por Caco Barcellos, da Globo. Se não for literal, é quase: “A avó que se prostitui para sustentar a família”. E a esforçada senhora, entendi, vai conceder uma entrevista.

    Sou contra, evidentemente, a criminalização da prostituição — mas favorável, sim, à punição da cafetinagem. Se há quem só faça por dinheiro, ok. Se há quem só se excite pagando, ok também. O mundo é vasto. Mas ninguém se prostitui “para sustentar a família”. Isso, como dizia Padre Quevedo no Fantástico do tempo em que eu era criança, “non ecziste”.

    Meu pai sempre trabalhou muito. Era um operário semianalfabeto, oriundo do interior. Vida dura. Minha mãe tinha de ajudar. Costurava, fazia faxina na casa dos ricos, trabalhava num matadouro de frango, fazia crochê etc. Quando os Secos & Molhados estouraram, no começo dos anos 1970, a gravadora Continental não dava conta de fabricar capas dos LPs. Lá formos nós, mãe, eu e irmã, pegar capas para colar — era um preço fixo por centena. Antes das fraldas descartáveis, também se costuravam calças plásticas de bebês. Pagava-se por milheiro.

    O trabalho pode não dignificar por si. Mas lutar para ganhar a vida com o seu trabalho, ah, isto sim! Em circunstâncias excepcionais, lá nos grotões do fim do mundo, pode até ser que alguém se prostitua por contingências que não são de sua escolha. No geral, não é assim. 

    A prostituição é um desses temas que embatucam a cabeça dos politicamente corretos. A primeira inclinação é ver a prostituta como vítima. Mas isso também pode soar como demonização do sexo, o que convém evitar nestes tempos de vale-tudo (e não aquele do Tim Maia, que era muito conservador…). Por outro lado, admitir que é uma simples escolha retira da personagem certo ar, sei lá, de resistência heroica. Então se chega a esta estranha expressão: “prostitui-se para sustentar a família”.

    Entendo. Devo concluir, em consonância com esse texto, que é como fazer faxina, costurar, fazer crochê, colar capa de disco… No afã de transformar a prostituta numa trabalhadora, acaba-se transformando toda trabalhadora numa prostituta. É preciso tomar cuidado com as relações de equivalência moral.

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    Eu não posso, evidentemente, concordar com isso. Não só porque a minha mãe era outra coisa. Mas porque quase todas as mulheres pobres lá de onde vim eram, e são, como a minha mãe, sendo certo que também havia prostitutas por lá, como há em qualquer lugar. Sabem o que é? Eu me interesso pouco por quem decide ser prostituta entre as que não são. Mas eu me interessaria por quem, entre prostitutas, decidisse não ser.

    Acho que cada um desses vetores faz um tipo de sociedade.

    Texto publicado às 22h45 desta terça
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