Alencastro e a dislexia argumentativa
Certa antropologia e certa sociologia nativas tentam sempre captar o que eu chamaria de “exceção brasileira”, algo que faria com que sejamos o que somos: onde estaria essa particularidade? Não tenho paciência para essas coisas, como sabem. A minha inclinação é bem outra: interessa-me mais o que, no Brasil, é traço universal. Deixo particularismos por […]
Certa antropologia e certa sociologia nativas tentam sempre captar o que eu chamaria de “exceção brasileira”, algo que faria com que sejamos o que somos: onde estaria essa particularidade? Não tenho paciência para essas coisas, como sabem. A minha inclinação é bem outra: interessa-me mais o que, no Brasil, é traço universal. Deixo particularismos por conta dos vegetais — só o Brasil tem jabuticaba — e eventos da natureza: a nossa pororoca é a maior do mundo… Mas adiante. Um amigo me manda um link da UOL News (acho que é só para assinantes), em que o professor brasileiro Luiz Felipe de Alencastro, Diretor do Centre d’Etudes du Brésil et de l’Atlantique Sud, afiliado ao Centre Roland Mousnier, da Universidade de Paris-Sorbonne, analisa as eleições francesas.
Vale a pena ouvir (clique aqui). A chamada da UOL News é interessante: “Vitória de Sarkozy é revanche da direita, diz Alencastro”. O apresentador entrevista o professor. A conversa é precedida de uma vinheta que mal esconde a pretensão: “Felipe no Mundo”. Uau! Fotos suas são levada ao ar, ora com a mão do queixo, ora com os olhos voltados para o alto, como quem faz download do divino: “Venham idéias puras, tomem este corpo”.
O mais curioso é que a entrevista demente a chamada. Num dado momento, ele é indagado se o Le Monde está certo quando afirma que a vitória de Sarkozy é a revanche da direita. Ele diz um “Oh, sim…” Mas, curiosamente, na seqüência, seus argumentos nos levam a crer que não. É um caso típico não do que Olavo de Carvalho chama de “paralaxe cognitiva” (pesquisar a respeito), mas de dislexia argumentativa. Ele diz “sim” e dá exemplos que provam o “não”. Não, diz ele, Sarkozy não poderá revogar algumas leis que datam lá de 1968 e tem poderes limitados para legislar sobre certos assuntos, porque são decisões tomadas no âmbito do Parlamento Europeu. Quando trata da mudança da aposentadoria, Alencastro deixa claro que ela é necessária porque a expectativa de vida aumentou muito no país.
Vale dizer: Sarkozy não é a revanche da direita coisa nenhuma, mas um intelectual brasileiro, claro, tem de ser progressista e precisa demonstrar que suas simpatias estão com a esquerda mesmo quando nem ele próprio consegue dizer os motivos. É um troço formidável. Note-se o sotaque afrancesado do brasileiro. O francês é para Alencastro o mesmo que o inglês é para Mangabeira Unger. E, na entrevista em questão, quase se igualam também na glossolalia. Ao falar da aposentadoria, num dado momento, Alencastro solta um “nós…” (referindo-se aos franceses) e depois se corrige. Entendo. Há um mito de que a França é a pátria coletiva dos sonhos. Mas não é. Ainda existem os franceses.
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