AINDA CARLOS LACERDA E AS CULPAS
Escrevi ontem, contestando um texto de Elio Gaspari, que o problema de Carlos Lacerda não era a bandeira da moralidade ou a denúncia da roubalheira. O problema de Carlos Lacerda era o golpismo. Escrevi e sustento. Ainda que o considere uma personagem admirável, dono de uma retórica e de um texto primorosos, o fato é […]
Escrevi ontem, contestando um texto de Elio Gaspari, que o problema de Carlos Lacerda não era a bandeira da moralidade ou a denúncia da roubalheira. O problema de Carlos Lacerda era o golpismo. Escrevi e sustento. Ainda que o considere uma personagem admirável, dono de uma retórica e de um texto primorosos, o fato é que jamais endossaria seu jeito de fazer política. Teria comungado de muitos de seus valores se tivesse sido um seu contemporâneo. Mas não fui. Tinha 15 anos quando ele morreu., em 1977. Lembro de ter ouvido a notícia no rádio do ônibus. Já tinha sido treinado para odiá-lo, o “grande culpado civil” pelo “golpe de 1964″. Descobri a personagem fascinante, que errava e acertava sempre em grandes proporções, um pouco mais tarde. Adiante.
Mesmo fazendo restrições severas, pois, à sua atuação, é evidente que discordo do trecho do texto de Gaspari que trata da relação de Lacerda com adversários, a saber:
“[Lacerda] Carregava nas costas o suicídio de Getúlio Vargas (cujos capangas tentaram matá-lo em 1954), assim como carregou a deposição de João Goulart e um pedaço da ditadura que se instalou em 1964.”
Não consta que Lacerda se considerasse culpado pelo suicídio de Getúlio Vargas — porque o único responsável pela morte do suicida é o… suicida. Basta ler as duas cartas de Getúlio para constatar que o tiro que o matou foi, no que concerne à política, a prepotência. Também ele não tinha sido treinado para viver numa sociedade democrática.
Quanto a João Goulart, parece piada afirmar que Lacerda pudesse carregar nos ombros a sua deposição. Quem depôs Goulart foi… Goulart quando decidiu levar o baguncismo para dentro do governo. Foi ele que conduziu a política ou para um autogolpe ou para um golpe de estado. Deu golpe de estado. Entre as duas opções, não me peçam para escolher… E a prova de que Lacerda era personagem secundária da trama é que a “revolução” acabou por engoli-lo também, como todo mundo sabe.
Essa ladainha de que os derrotados de 1964 foram vítimas de uma terrível conspiração porque queriam democracia e foram esmagados por gorilas de direita — ou mesmo por um príncipe, como Lacerda, convertido em “Corvo” —, serve para endossar tentações antidemocráticas ainda hoje.





