Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Radar Jurídico

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

Moral complacente

Ética, tenho repetido à exaustão, é a única matéria-prima de que o Brasil se ressente

Por José Renato Nalini
6 mar 2026, 10h00 •
  • Quando se discute se o STF tem ou não de ter um Código de Ética, os que se detiveram a estudar essa ciência do comportamento moral dos seres humanos em sociedade só podem concluir que a moral não é absoluta. Ela é menos do que relativa. Ela é complacente, como se aprendia nas aulas de Medicina Legal, quando assim se qualificava uma espécie de hímen. Aquele que aceitava relações sexuais sem se romper.

    É que a ética varia de acordo com os interesses. Surreal o CNJ concluir que familiares podem advogar em tribunais integrados por parentes. Ou até por mais do que parentes, como é o caso de marido e mulher. Não são parentes, mas formam “uma só carne”.

    Mas isso não acontece agora e não é privativo da cultura tupiniquim. Se é que isso traga algum conforto às inquietas mentes dos mais sensíveis.

    No livro “Introdução à Sociologia”, de Peter Berger, há um capítulo bem interessante: “Como trapacear e se manter ético ao mesmo tempo”.

    Isso é o que, não raro, ocorre na política, onde, além de protestarem pela postura essencialmente democrática, os profissionais dessa atividade partidária se consideram éticos. Absolutamente éticos.

    Continua após a publicidade

    Uma historinha serve para ilustrar como funciona o raciocínio desses varões de Plutarco, desses Catões da República.

    Em uma cidade dos Estados Unidos havia um templo batista e essa confissão é muito rigorosa em princípios morais. Não muito longe da igreja, havia uma fábrica de cerveja. Para os batistas, era a vanguarda de Satanás.

    O pastor não poupava a cervejaria em suas pregações.

    Continua após a publicidade

    Ocorre que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cervejas fez uma doação de 150 mil dólares para a Igreja. Os mais ortodoxos ficaram irados. Era dinheiro do demônio e não poderia ser aceito.

    Acontece, porém, que a Igreja precisava de reformas. A quantia custearia uma pintura nova. Ou o conserto do órgão. Por que não jardins mais bonitos. Salão social para festas. E assim é que, mediante análise das carências templárias, a resistência foi se arrefecendo.

    Reunida em assembleia, chegou a comunidade a uma decisão democrática. Lavrou-se no registro de atas: “A Igreja Batista Bethel resolve aceitar a oferta de 150 mil dólares feita pela cervejaria, na firme convicção de que Satanás ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus”.

    Continua após a publicidade

    Quando se noticia sem qualquer constrangimento, que existem bancadas temáticas – cita-se, inclusive, a bancada dos 3 “Bs”: boi, bala e bíblia – não é difícil se chegue à amostragem de como se pactuam as políticas no Parlamento tupiniquim.

    É assim que funciona a ética para aqueles que só a conhecem do discurso, e nunca da mais remota prática.

    Ética, tenho repetido à exaustão – e pregando no deserto – é a única matéria-prima de que o Brasil se ressente. Rico em biodiversidade, em minerais raros, em energia limpa, aquela nação que já foi “promissora potência verde”, antes de ser convertida em “Pária Ambiental”, só não tem é compromisso firme e sério com a irrepreensibilidade ética.

    Continua após a publicidade

    Existe remédio? Claro que sim. Acreditar, ainda uma vez, que a vocação humana é a perfectibilidade. Que cada criatura racional se imbuísse da convicção de que, a cada novo dia, ela teria de ser um pouquinho melhor do que fora no dia anterior. E assim, a espiral hegeliana, embora com exasperante lentidão, nos levaria a uma sociedade melhor.

    É claro que alguns destituídos de prudência, podem ousar e pregar a restauração da ética parlamentar, propagandeando nomes incorruptíveis para o novo Congresso. Por incrível parecer possa, há pessoas honestas e bem-intencionadas dispostas àquele convívio na ilha de fantasia chamada Brasília, onde a promiscuidade à noite arrefece candentes pronunciamentos emitidos durante o dia.

    Vamos ressuscitar a esperança. Sem utopia não se consegue viver neste nosso amado Brasil.

    Continua após a publicidade

    José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

    Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.