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Corrupção, democracia e eleições

Em 2026, os brasileiros retornarão às urnas em um contexto de tensões acumuladas no tecido democrático nacional, que foi visivelmente desgastado

Por Rodrigo Augusto Prando
30 jan 2026, 10h00 •
  • Este artigo não tem a pretensão de esgotar os temas anunciados em seu título. O objetivo é propor uma reflexão acerca da relação entre corrupção, democracia e eleições, especialmente em razão do próximo ciclo eleitoral brasileiro, que envolverá a escolha de deputados estaduais e federais, governadores, senadores e presidente da República. A ordem dos termos não é aleatória: a corrupção antecede a democracia e as eleições porque corrói, desde a base, as instituições e os valores públicos.

    A corrupção é um fenômeno antigo. Sua discussão está presente na Bíblia, bem como nas experiências históricas da Grécia e de Roma. Etimologicamente, deriva do latim corruptione, associada à putrefação, decomposição e adulteração. O conceito remete à podridão moral, ao suborno, à depravação dos costumes, à falsificação e ao uso de recursos públicos para fins privados. Historicamente, esteve presente nas sociedades clássicas, nas monarquias do Antigo Regime e também no período pós-Revolução Francesa, quando revolucionários que combatiam privilégios aristocráticos passaram a se beneficiar do Estado.

    Do ponto de vista sociológico, a corrupção pode ser compreendida como uma ação social dotada de sentido, nos termos de Max Weber. Trata-se de uma prática que pressupõe atores — quem corrompe e quem se deixa corromper — e ocorre em espaços institucionais públicos ou privados. Em regra, manifesta-se de forma velada, embora existam casos de corrupção aberta, nos quais o cálculo da impunidade supera qualquer constrangimento moral.

    Enquanto fenômeno individual, social, institucional e cultural, a corrupção impõe dificuldades à sua mensuração e combate. Por se tratar de prática ilegal e oculta, pesquisadores recorrem a indicadores de percepção social da corrupção. Diversos estudos nas áreas da Economia, do Direito e da Sociologia apontam a transparência governamental como elemento central para a redução dessas práticas.

    É nesse ponto que a corrupção se conecta à democracia. As democracias não eliminam a corrupção, mas oferecem mecanismos institucionais para seu enfrentamento, baseados nos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Democracias não são perfeitas e exigem a presença de cidadãos comprometidos com a distinção entre interesses públicos e privados. O espírito republicano, a igualdade perante a lei e o respeito à coisa pública são fundamentos indispensáveis.

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    A política e a democracia apostam nas virtudes cívicas e na vigilância constante contra tendências autocráticas. Populistas e extremistas que atacam instituições, transformam adversários em inimigos e deslegitimam eleições corroem a democracia e seus valores, atuando como verdadeiros corruptores do regime democrático.

    A política, em uma sociedade democrática, sustenta-se na mediação dos conflitos pelo diálogo, no reconhecimento das instituições e no respeito às leis. A democracia não se resume às eleições, mas elas são momentos centrais da vida cívica. Votar e ser votado, dentro de regras claras, constitui expressão fundamental da cidadania. Em 2026, os brasileiros retornarão às urnas em um contexto de tensões acumuladas no tecido democrático nacional, que, embora não rompido, foi visivelmente desgastado.

    Cabe ao cidadão — e não apenas ao eleitor — conhecer e escolher candidatos comprometidos com a democracia, o republicanismo e a honestidade. O voto é o principal instrumento para premiar os democratas e os honestos e punir retirando do espaço público autocratas e corruptos.

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    Pesquisas recentes (Genial/Quaest, dezembro de 2025) indicam que o combate à corrupção e a segurança pública permanecem entre as áreas mais mal avaliadas pelos brasileiros, independentemente do governo de ocasião. Esses dados reforçam a centralidade do tema no debate público. Se, permitem os leitores, um hábito inescapável de professor, é indicar livros. Assim, obras como O Brasil no espelho (Globo, 2025), de Felipe Nunes, e A cabeça do brasileiro (Record, 2017; Difel, 2025), de Alberto Carlos Almeida, ajudam a compreender valores, percepções e comportamentos relacionados à corrupção, ao “jeitinho” e à honestidade na sociedade brasileira. Soma-se a essas contribuições o livro A corrupção na história do Brasil (Editora Mackenzie, 2019 e edição ampliada em 2022), do qual participei como autor de um dos capítulos . Agora, no que tange à relevância das instituições para o desenvolvimento de um país, a sugestão é do livro Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza (Elsevier, 2012), de Daron Acemoglu e James A. Robinson. Um parêntesis: Acemoglu foi agraciado com o Nobel de Economia em 2024.

    A tríade — corrupção, democracia e eleições — permite compreender desafios persistentes da vida pública brasileira. Combater a corrupção é um valor republicano; defender a democracia é uma escolha civilizatória; e, não menos importante,  votar de forma informada e consciente é condição essencial para transformar o cenário político e institucional do país.

     

    Rodrigo Augusto Prando é professor universitário e pesquisador. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia pela Unesp. Membro da Comissão Permanente de Estudos de Políticas e Mídias Sociais do Instituto dos Advogados de São Paulo e voluntário do Movimento Escoteiro.

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    Este artigo é uma colaboração do Canal INAC com VEJA

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