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Por Trás dos Números

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Renato Meirelles é pai da Helena, acredita que a Terra é redonda, está à frente do Instituto Locomotiva e, neste espaço, interpreta os números muito além da planilha Excel

O brasileiro quer mais do que um emprego

Pesquisa revela que 46% dos brasileiros sonham em empreender. A busca por autonomia e flexibilidade redefine o sucesso profissional

Por Renato Meirelles Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 mar 2026, 15h50
O brasileiro quer mais do que um emprego Priorizar nos meus resultados Google

Durante décadas, o maior sonho profissional do brasileiro foi o de ter um emprego com carteira assinada. Mais do que uma fonte de renda, a CLT representava estabilidade, respeito social e a promessa de uma trajetória previsível. Era o ideal de uma geração inteira. Esse imaginário, no entanto, começou a mudar.

Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro revela que o principal sonho profissional do brasileiro, hoje, é ter o próprio negócio. Não se trata de uma tendência isolada: 46% dos entrevistados apontam o empreendedorismo como objetivo central de carreira. O dado mostra que o imaginário do trabalho está passando por uma transformação importante.

Não é um movimento pontual. Ele expressa uma mudança na forma como os brasileiros enxergam trabalho e emprego. Se antes os dois conceitos caminhavam quase juntos, hoje ocupam lugares distintos no imaginário social. Trabalhar continua sendo um valor, mas o emprego formal já não ocupa sozinho o lugar de principal aspiração.

Essa mudança não acontece por acaso. Ela dialoga com uma percepção crescente de que o modelo tradicional já não responde sozinho às expectativas de autonomia, flexibilidade e crescimento. O emprego formal segue tendo importância e oferecendo proteção, mas já não concentra, como antes, a promessa de futuro para todos.

É preciso olhar também para a estrutura do mercado de trabalho. Grande parte dos empregos formais no país está concentrada em ocupações com poucas oportunidades de ascensão, como serviços domésticos, comércio e limpeza. Nessas funções, a possibilidade de progressão é limitada e, muitas vezes, insuficiente para sustentar um projeto de vida mais ambicioso.

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Diante disso, o empreendedorismo surge menos como ruptura e mais como alternativa possível. Mais do que abrir grandes empresas, trata-se, na maioria das vezes, de iniciativas pequenas, muitas vezes como complemento de renda. É o “bico”, o “freela”, o negócio informal que começa dentro de casa.

O que mudou, nos últimos anos, foi o alcance dessas iniciativas. As plataformas digitais reduziram drasticamente o custo de entrada e ampliaram o mercado potencial. Quem antes vendia apenas para o bairro, hoje pode atender uma cidade inteira, ou até o país. A tecnologia não apenas viabilizou esses negócios, como também reforçou a percepção de autonomia e controle sobre o próprio tempo.

No fundo, o que está em jogo é uma redefinição do que significa sucesso profissional. Para muitos brasileiros, ser dono do próprio tempo e ter a possibilidade de aumentar a renda pesa mais do que a previsibilidade de um salário fixo. Não porque o emprego formal tenha perdido relevância, mas porque deixou de ser o único símbolo de realização.

Isso não significa que o empreendedorismo seja uma solução fácil ou que substitua, de forma plena, as proteções do trabalho formal. Significa, isso sim, que o Brasil de hoje olha para o trabalho de forma mais ampla. O brasileiro continua querendo trabalhar. Mas, cada vez mais, quer encontrar nesse trabalho espaço para autonomia, renda e perspectiva de futuro

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