A guerra ridícula ao travessão — o das IAs e o nosso
Textos escritos por máquinas não são um problema, desde que um humano se dê o trabalho de fazer sua parte

Poucas coisas na internet me irritam tanto atualmente — e olha que não falta concorrência — quanto a guerra ao travessão.
Você provavelmente ouviu falar (ou leu alguém no LinkedIN falando a respeito) que textos com abundância de travessões seriam resultado não da capacidade humana de concatenar palavras, como temos feito há milhares de anos, mas da ação de inteligências artificiais. “Arrá, um travessão! Escreveu com IA”, diriam os detratores deste sinal gráfico que tanto aprecio.
Minha irritação com o tópico vem de duas frentes. A primeira é que SEMPRE utilizei travessões, um recurso precioso para organizar ideias e tornar mais eficientes as histórias que conto por ofício e por prazer. Sei que não sou o único.
Bom, o travessão está aí desde o século XVI, ainda que no português seja menos comum que em outros idiomas. De qualquer maneira, é um absurdo, uma inversão de valores as pessoas que sabem usá-lo precisarem abrir mão dele com medo de serem tachadas de máquinas.
A culpa não é do ChatGPT, é do cenário de “publique ou suma”
A segunda razão da minha irritação tem a ver com a “caça aos textos de IA”. Entendo que as pessoas abusam, concordo que fazem mal uso das inteligências generativas e que há, de fato, um aumento exponencial de conteúdo porcaria nas redes. Mas, nesses casos, o erro é dos humanos. Não da IA.
O fato de algo ser escrito por uma máquina não torna aquilo necessariamente ruim, ESPECIALMENTE se uma pessoa se dá o trabalho de revisar. Portanto, critiquemos os preguiçosos, a pressa, a cobrança por publicar para não desaparecer, a sociedade do cansaço, a exigência de produtividade — não os usuários de travessões.

Ainda sobre a multiplicação de textos ruins: tenho pensado no paralelo entre a explosão de textos feitos por IAs e o que aconteceu nas décadas seguintes à invenção da imprensa por Gutenberg, no século XV.
A história se repete, uma revolução após a outra
Clay Shirky, no (old but gold) livro Cultura da Participação, ressalta que a tecnologia de impressão provocou uma explosão na produção de livros. E uma quantidade IMENSA deles era deplorável. Porém, permitiu também outro tanto de obras ÓTIMAS, e isso ajudou a aumentar progressivamente — ainda que lentamente — a importância da leitura na rotina das pessoas.
Nas palavras do próprio Shirky:
“A abundância acarreta uma rápida queda na qualidade média, mas com o tempo a experimentação traz resultados, a diversidade expande os limites do possível e o melhor trabalho se torna melhor do que o que havia antes.” (Cultura da Participação, 2011, p. 50)
Isso indica que, tal e qual na seleção natural de Darwin, sobreviverão os que melhor se adaptam. Foi assim com a Revolução da Imprensa, depois com a Revolução Industrial e tem sido assim com a Revolução Digital — só estamos imersos demais nela para notar, por enquanto.
Obs.: Perdão por abusar de travessões — todos eles meus — neste texto.