A era do texto ultraprocessado
A mágica criativa oferecida pelas IAs deu origem a uma escrita que enche os olhos, mas que não necessariamente diz alguma coisa
Você se lembra de como o sorvete de pote, daqueles do mercado, era mais gostoso há alguns anos? Aí a qualidade foi caindo aos poucos a ponto de parecer outra coisa. Pois bem, a escrita contemporânea vive seu momento sorvete. Chegou a era do texto ultraprocessado, modalidade de escrita que povoa as plataformas digitais no momento, nascida no ChatGPT ou em outro modelo de inteligência artificial.
Aprendemos com Rita Lobo, defensora da comida de verdade, que ultraprocessados são vendidos como alimento e têm todas as suas características, menos a mais importante: a nutrição. E, com a escrita ultraprocessada, funciona mais ou menos assim. Cara de texto, aspecto de texto, mas que não necessariamente diz alguma coisa. A gente sabe que a qualidade não é das melhores só de consumir – igual biscoito (ou bolacha) recheada.
Enquanto os produtos industrializados se multiplicaram tendo a energia elétrica como força motriz, o texto ultraprocessado nasce da reconfiguração digital que marca nossas vidas. Mas, sobretudo, da pressão por performance nas redes sociais que a gente conhece bem. Publique três vezes por semana, ainda que ninguém vá ler. Vai que, algum dia, o algoritmo dá uma chance para o seu post, você viraliza e vira o próximo influenciador!
Nesse cenário, a mágica oferecida pelas IAs vem no momento perfeito. Permite a simulação de ideias, sem que a pessoa efetivamente pare para pensar em algo. É só organizar o prompt direitinho, que logo você terá uma combinação de palavras que atendem à quantidade mínima de publicações que a internet espera, e você poderá voltar ao seu trabalho de verdade. Aquele que realmente paga os boletos, sabe?
Eu sei, pareço amargo nas palavras acima, mas a surpreendente contradição humana me permite dizer aqui que eu NÃO sou um opositor ferrenho do texto ultraprocessado. Porque, assim como o sorvete de pote, ele tem seu papel – e, do mesmo jeito que de vez em quando como um napolitano horrível, também leio bobagem e dou risada ocasionalmente.
Considero normal o uso das IAs para escrita, desde que não se terceirize totalmente a tarefa a elas. São ótimas ferramentas, especialmente para quem não tem muito jeito com as palavras. Quando vistas mais como máquina datilográfica turbinada do que como ghost writer, por mim tudo certo. Além disso, vamos ser lúcidos? Texto de rede social nunca foi sinônimo de qualidade.
O problema, aqui, é de volume. Quando o texto ultraprocessado virou a regra, em vez da exceção, as pessoas começaram a cansar dele porque ninguém quer comer porcaria todo dia (acho). Aí vieram as reclamações, seguidas de gente se queixando de quem se queixa – eu mesmo fui um, num post que fez bastante sucesso, aliás.
Nem tudo que se escreve precisa ser a derradeira expressão do humano, claro. A bem da verdade, a escrita foi inventada com finalidade utilitária e não porque alguém queria expressar sua visão de mundo. Era mais ligada a contar ovelhas do que exaltar a luz das estrelas. Ou, como diria o ChatGPT, não era sobre expressão, era sobre função. E, ainda nas palavras da IA: isso muda o jogo.
Costumo dizer que os textos de inteligência artificial, se a gente não mexe neles antes de jogar no mundo, são como algodão doce: enchem os olhos, seduzem, encantam, mas, se você espremer, viram uma bolinha melada.
Porém, ao mesmo tempo que o sorvete de pote vendido no supermercado virou intragável, isso abriu caminho para uma série de marcas mais nobres, artesanais, gourmet. Comer produto melhor custa mais caro, é verdade, mas a possibilidade ainda existe. E, de novo, cabe o paralelo com a escrita. Textos autorais talvez passem a ser mais valorizados? Não sabemos. Mas certamente vão dividir espaço com os ultraprocessados, pois, quando se trata de conteúdo e mídia, os ecossistemas sempre se reequilibram.
Pela primeira vez na história, humanos veem sua capacidade criativa seriamente desafiada por uma coisa que nós mesmos inventamos. Um paradoxo curioso, instigante. Mas, do mesmo jeito que o conceito de autoria contemporâneo foi construído a partir da Revolução da Imprensa (século XV), está sendo redefinido pela Revolução da Inteligência Artificial. Resta saber se, no futuro, vamos achar na geladeira um pote com sorvete ou com feijão. Se é que haverá pote.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos





