Homem com H e mais: novas cinebiografias expõem ídolos musicais sem pudor
Filme sem censura de Ney Matogrosso se junta a uma leva em que os artistas não têm medo de contar sua história sem maquiagem (ou quase)

Incomodado com os trejeitos afeminados do filho Ney de Souza Pereira (Jesuíta Barbosa), o militar Antonio Matto Grosso Pereira (Rômulo Braga) dá uma surra no garoto. “Não quero filho viado morando aqui”, diz o sargento da Aeronáutica. Revoltado com as agressões, o jovem decide sair de casa, em uma vila militar em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Antes de sair, porém, Ney vira-se para o pai e, olhando em seus olhos, dispara: “Não sou viado, mas quando eu for o Brasil inteiro vai saber”. A cena é o prelúdio perfeito para a cinebiografia Homem com H, que conta a história do cantor Ney Matogrosso e estreia nos cinemas na quinta-feira 1º de maio. Sem ter para onde ir, ironicamente, Ney vai buscar apoio justamente na Aeronáutica ao se alistar para servir na base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Na caserna, nutre um amor platônico por um colega de farda e assume ali que, sim, ele é gay. Nos anos seguintes, de fato, o Brasil inteiro vai conhecer Ney não só por sua orientação sexual — que nunca escondeu de ninguém —, mas principalmente por seu talento.

Nos últimos anos, as cinebiografias de ídolos musicais se tornaram um filão de sucesso no Brasil e no exterior, e a riquíssima história de Ney Matogrosso é o mais recente exemplo de uma lucrativa (e bem-vinda) tendência nessa seara: as cinebiografias “honestonas”, em que os próprios biografados influem de maneira direta ou indireta — mas, longe de amenizar seus retratos, fazem questão de vender a ideia de que “dão a cara a tapa” ao expor sua vida na tela. Homem com H engrossa uma lista que já é forte há tempos lá fora. Em 2019, Elton John esmerou-se em Rocketman: o filme não doura a pílula ao mostrar seus problemas de saúde e com drogas. A estratégia foi radicalizada pelo cantor Robbie Williams em Better Man, lançado no Brasil em março — e no qual o ex-ídolo de boy band inglês assume a figura de um macaco para também contar uma história de abuso de drogas, brigas e até uma dramática cena de aborto de sua ex-namorada, Nicole Appleton.
Qualquer que seja o drama do artista de plantão, a premissa dessas cinebiografias não é a exaltação pura e simples de sua figura, mas, a despeito de comportamentos muitas vezes condenáveis, revelar também que são astros de carne e osso. Homem com H não tenta mostrar um artista sem falhas, ao contrário. O filme fala abertamente dos problemas familiares de Ney e de sua homossexualidade — ilustrada com (muitas) cenas de sexo e o ruidoso romance com Cazuza (Jullio Reis) —, além das brigas com os colegas do Secos & Molhados e do abuso de drogas e bebidas, entremeados com a epidemia de aids e a violência da ditadura militar. “O Ney não interferiu na biografia, mas acompanhou de perto. Ele não proibiu nada. Pelo contrário, colaborou dublando as músicas que Jesuíta cantava e revelando como se sentia em cada momento da vida”, diz o diretor Esmir Filho.

No enredo, o cantor se mostra também carente de amor. Seu nome artístico, “Matogrosso”, foi escolhido em homenagem a seu estado de origem, mas também por ser o mesmo sobrenome do pai. “A maior autoridade que já enfrentei”, diz o personagem. Comove, ainda, no momento mais dramático da trama, em que dá um tempo na carreira para cuidar do companheiro Marco de Maria (Bruno Montaleone), com quem manteve um relacionamento de treze anos e que morreu em decorrência da aids em 1990, apenas dois dias após Cazuza.
No outro extremo das cinebiografias “honestonas” estão os legítimos (e tão fora de moda) filmes chapa-branca, que mais endeusam os biografados que ajudam a contar sua história. A minissérie As Aventuras de José e Durval, do Globoplay, transformou a saga da dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó para se tornar uma das maiores do Brasil numa fábula açucarada, que está mais para peça de propaganda que drama de superação.

Pior que isso, só quando as cinebiografias são usadas para maquiar a história dos artistas de forma fake. Dois exemplos estrangeiros são lapidares. Back to Black (2024) narra a vida de Amy Winehouse e tem produção do pai da cantora, Mitchell. Ganancioso, o genitor só pensava em explorar a carreira da filha, fazendo vista grossa para o comportamento errático que a levou à morte em 2011, aos 27 anos, por abuso de álcool e drogas. No filme, porém, Mitchell é pintado como um santo que teria ajudado Amy a se tratar. No caso do sucesso Bohemian Rhapsody (2018), os remanescentes do grupo Queen assumiram o papel de produtores e fizeram de tudo para ficar bem na foto: o filme não mostra suas brigas com Freddie Mercury e faz questão de enfatizar que eles seguiram adiante mesmo após a morte do cantor.

Nos próximos meses, um novo vexame se avizinha. Prevista inicialmente para abril, a cinebiografia de Michael Jackson (vivido por seu sobrinho Jaafar Jackson) foi adiada para outubro devido a “complicações no roteiro” — leia-se, interferência dos familiares, que querem suavizar as acusações de abuso sexual contra ele. Como prova agora o exemplo de Ney Matogrosso, nada como um choque de sinceridade para salvar os artistas de seu maior inimigo, a hipocrisia.
Publicado em VEJA de 25 de abril de 2025, edição nº 2941