Assine VEJA por R$2,00/semana
Imagem Blog

O Som e a Fúria Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO

Por Felipe Branco Cruz
Pop, rock, jazz, black music ou MPB: tudo o que for notícia no mundo da música está na mira deste blog, para o bem ou para o mal
Continua após publicidade

De Sinatra a The Weeknd, IA recria vozes famosas – e assusta o showbiz

A explosão de ferramentas desafia os direitos autorais e abre debate sobre os limites para o uso da inteligência artificial

Por Felipe Branco Cruz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 26 out 2023, 09h27 - Publicado em 2 jun 2023, 06h00

Em abril, uma música com apenas quatro notas de piano e batida eletrônica repetitiva se tornou um hit viral com mais de 10 milhões de execuções no TikTok e 254 000 no Spotify. Heart on My Sleeve era interpretada em dueto pelas vozes dos pop stars The Weeknd e Drake — e a letra versava sobre o término do namoro do primeiro com a cantora Selena Gomez. Ela poderia ser só mais uma dentre tantas canções de dor de cotovelo que pipocam diariamente no pop. Só que os dois artistas jamais escreveram ou interpretaram a música de fato, que foi criada pelas novas ferramentas de inteligência artificial.

2041: Como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas próximas décadas

Dessa forma, Heart on My Sleeve logo se converteu num caso emblemático dos desafios da regulamentação da música feita por meio da IA — inovação que já tira o sono de executivos e compositores, ainda que a exploração de seu potencial esteja só engatinhando. O uso causa um misto de euforia e apreensão nas mais diversas áreas — e na música não é diferente. Seu fruto mais vistoso até agora é a recriação das vozes de estrelas vivas ou mortas. Em 2021, o cantor sul-coreano Kim Kwang-seok, falecido há 27 anos, teve seu vocal refeito por um software numa canção inédita. Mas o fenômeno explodiu de fato nos últimos meses, com o progresso das novas tecnologias de clonagem de voz e a proliferação de sites que permitem fazer experiências de forma gratuita, como Aiva, Magenta, Watson, Amper, Covers.AI e Jukebox.

O grau de fidelidade e a facilidade de copiar as vozes de grandes artistas impressionam. O sucesso fake de The Weeknd e Drake foi criado por um usuário do TikTok identificado apenas como ghostwriter977. Ele treinou um software de IA para reproduzir as vozes dos dois cantores e disseminou o resultado no streaming — sem que eles recebessem um tostão por isso. A Universal Music entrou na jogada e pediu que a canção fosse retirada do ar, mas não foi atendida de imediato por ser necessário confirmar a infração aos direitos autorais, já que se tratava de composição inteiramente original — algo inédito e surreal.

All You Need to Know about the Music Business

Continua após a publicidade

Entre os músicos e as gravadoras, a preocupação é com a monetização de canções criadas sem a autorização dos artistas. Para se ter ideia do desafio para as gravadoras, Heart on My Sleeve só foi barrada após a Universal achar uma brecha legal para tanto, alegando que a obra usava indevidamente trecho de uma música de outro produtor de seu cast. A legislação, enfim, não avança na mesma velocidade que a tecnologia: nem nos Estados Unidos há lei que assegure os direitos sobre uma voz criada virtualmente.

SEM LIMITES - Vozes em novas músicas: Ariana Grande surgiu cantando Anitta e Pabllo Vittar e a voz de Eminem foi usada pelo DJ David Guetta
SEM LIMITES – Vozes em novas músicas: Ariana Grande surgiu cantando Anitta e Pabllo Vittar e a voz de Eminem foi usada pelo DJ David Guetta (Montagem com fotos Xavier Collin/NurPhoto/AFP; Kathy Hutchins/shutterstock; istock/Getty Images)

A prática esbarra ainda em questões éticas: é correto, afinal, recriar uma voz famosa para cantar algo que o artista talvez jamais cantaria? “Como filho da Elis Regina, acharia curioso ouvir minha mãe cantando Marília Mendonça. Mas isso jamais seria a Elis de verdade. Música é uma tradução de sentimentos, ideais e emoções humanas”, diz o produtor João Marcello Bôscoli.

Um episódio recente ilustra a bola dividida. A voz de Renato Russo foi usada para interpretar uma música sertaneja, Batom de Cereja. O espólio do artista, morto em 1996, ameaçou entrar na Justiça — e o criador da montagem a retirou do ar. No exterior, os exemplos abundam, com as vozes de Rihanna cantando Beyoncé, Frank Sinatra entoando um hit de Britney Spears, e Ariana Grande dando voz a músicas de Anitta e Pabllo Vittar. Há exemplos tocantes, como o de John Lennon cantando New, uma canção da carreira-solo de Paul McCartney.

Continua após a publicidade

Para além dos dilemas, a novidade é vista com bons olhos por produtores musicais, e artistas empolgam-se com o admirável mundo novo da IA. Para o engenheiro de som Carlos Freitas, que já trabalhou em gravações de João Gilberto e Tom Jobim, a ferramenta será inevitável na criação de novas músicas. “Todas as tecnologias passam por essa fase de adaptação”, diz ele. A opinião é compartilhada pelo produtor Pablo Bispo, autor de hits de Iza, Anitta e Ludmilla. “Um machado pode cortar madeira ou ferir alguém. Tudo depende do uso — e é assim com a IA”, compara.

Recentemente, o produtor americano Timbaland investiu numa startup para recriar vozes de artistas mortos e lançou uma música com o rapper Notorious B.I.G. (1972-1997). “Não tenho medo do que está acontecendo”, declarou. O DJ David Guetta também entrou na onda, ao emular a voz do rapper Eminem num show. “O futuro da música está na IA”, disse. Mas foi a cantora Grimes quem teve a iniciativa mais arrojada até agora. A ex de Elon Musk lançou seu próprio app, o Elf.Tech, liberando qualquer um para usar seus vocais em novas canções — desde que receba 50% dos lucros. Até o momento, mais de 300 músicas já foram feitas. Os robôs nunca tiveram tantas vozes — e também nunca provocaram tanto barulho.

Publicado em VEJA de 7 de junho de 2023, edição nº 2844

CLIQUE NAS IMAGENS ABAIXO PARA COMPRAR

2041: Como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas próximas décadas
2041: Como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas próximas décadas
All You Need to Know about the Music Business
All You Need to Know about the Music Business

*A Editora Abril tem uma parceria com a Amazon, em que recebe uma porcentagem das vendas feitas por meio de seus sites. Isso não altera, de forma alguma, a avaliação realizada pela VEJA sobre os produtos ou serviços em questão, os quais os preços e estoque referem-se ao momento da publicação deste conteúdo.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.