Relembrando Moacyr Scliar
"Se o escritor não sente prazer quando escreve, o leitor dificilmente sentirá quando lê"

Existem duas formas de se reconhecer um grande escritor. No primeiro caso, o leitor não sofre nenhum impacto inicial, lê como se estivesse lendo algo corriqueiro e só mais tarde, numa releitura, descobrirá as virtudes que a princípio passaram despercebidas. Esse tipo de escritor é chamado de gênio (depois de morto, é claro), já que seus romances ou poemas possuem ingredientes subliminares que costumam dar origem a inesgotáveis interpretações.
No segundo caso, o texto é tão explicitamente “diferente” que o impacto se dá na leitura do primeiro parágrafo. É um agradável choque que tomamos ao virar as páginas. Esse tipo de escritor também é reconhecido por uma série de adjetivos glamorosos, mas, muitas vezes, a originalidade do seu estilo acaba ofuscando os olhos do leitor e também impedindo-o de buscar as “intenções ocultas” nas entrelinhas.
Indiscutivelmente impactante, a obra de Moacyr Scliar (1937-2011) pertence a esse segundo grupo. Assim que você começa a ler um conto ou um romance, percebe que há alguma coisa inusitada, embora sutil, na forma como ele conta as suas histórias. Não se trata de nenhuma estilização exagerada, do simples desejo de modernizar o texto, mas de uma escrita que consegue, ao mesmo tempo, ser simples e sofisticada, clara e enigmática, contemporânea e ancestral.
Ainda que seja mais conhecido pelos romances que publicou nos últimos anos de vida, especialmente a trilogia baseada em passagens da Bíblia, é no conto que a obra de Scliar demonstra a sua energia revitalizante. Num deles, um marinheiro se salva de um naufrágio e, com a ajuda de uma vaca chamada Carola, encontra a ilha onde passará a explorar e torturar o animal. Noutro, uma galinha que põe ovos de ouro se apaixona pelo dono da granja, um canalha insensível e aproveitador.
Essas histórias foram escritas para causar riso ou comoção?
Ninguém sabe, e é justamente essa ambiguidade que faz de Scliar um escritor maiúsculo.
Apesar do reconhecimento que obteve em vida e que se reafirmou por ocasião de sua morte, ainda há muito o que investigar em seus livros. O fato de que tinha a literatura como ofício compulsivo — escrevia com espantosa facilidade, praticava quase todos os gêneros e discorria sobre todos os assuntos — torna essa empreitada de descobertas ainda mais lúdica e estimulante.
— Se o escritor não sente prazer quando escreve — dizia Scliar, questionando a máxima de Samuel Johnson — o leitor dificilmente sentirá prazer quando lê.
E prazer, aqui, parece ser mesmo a palavra.
Quem já leu alguma coisa de Moacyr Scliar, qualquer coisa, vai entender a afirmação.