Nunca tantas de nós estivemos tão ligadas na mesma vibe – trabalho permanente pelo respeito que será patrono da igualdade de fato, a que faz iguais com respeitosa atenção às diferenças. Respeito é a chave. Ninguém larga a mão da outra – todas. Com a generosidade de incluir até as que não se percebam como “nós”. São dias de firmeza na luta. Na alegria, nas tristezas.
Mas o título é também homenagem a Domingos Oliveira, um homem, artista porreta que alegre e amorosamente, no cinema, no teatro, na TV e em textos contou momentos e movimentos de costumes brasileiros. Os universais – amores e desamores, homens e mulheres em momentos de derrapar na vida e nas paixões, de se desentender e entender fases da vida ou a vida em fases.
Domingos foi amoroso com a vida. Soube saboreá-la. Contou o amor com os defeitos que ele tem. Sem idealizar, fez personagens mulheres, homens, meninas – simples, ousados, medrosas, valentes, corajosas, atrevidos. Assim como todos somos, um dia mais, outro menos, outro mais.
Morreu escrevendo sobre mulheres de mais de 50. Muita coisa a contar. A ver como Domingos vinha contando. Sem meias palavras, com humor e amor certamente. Ao seu estilo. No seu lugar de fala. Domingos teve e ocupou seu lugar de artista. Fez dele seu carioca lugar de fala.
Um conhecido me pediu para explicar o sentido do falado “lugar de fala”. Disse não entender, mas abomina a expressão e reputa a ação como desnecessária. Macho doce, risonho e debochado, também contumaz e abusado derrapador no trato com as mulheres, ele é mais um dos que a idade – e os novos tempos – fez mais contido. Também inconformado.
Assim resumido, tipo informação rápida e rasa de Google, lugar de fala é a busca pelo fim da mediação. É o espaço da/o oprimida/o para expor as opressões vividas. Assim ser protagonistas da sua vivência, da sua queixa, da sua rebelião.
O termo apareceu no discurso feminista e se ampliou para todos os espaços e contingentes de oprimidos e abusados. Falo do que eu sei, não do que eu acho. Embora, generosamente, hoje, dê voz também para os que conhecem por estudar, observar, sentir e sensibilizar-se com que o outro vive.
Lugar de fala é isso tudo e mais do que esse tudo. É espaço de afirmação e comunicação – de papo reto. Resenha pra entendimento dos óbvios não percebidos ou escamoteados. E o explicito sem ressentimento. Relato para abrir portas. De preferência amorosamente. Porque o amor vem fazendo falta. E a falta dele faz trevas. Todas as que temos vivido. E que alcançam ferozmente as mulheres, os negros, os LGBTI, os pobres – adultos e crianças.
É feia a realidade desta segunda década do século. Expandida e sem limites, a vida virtual é falsa, curta e fluida. Mas gente feito o Domingos de Oliveira abre lugar de fala para esperança. Dá pra ser melhor. Precisamos falar sobre isso. Compreender isso. Atuar e acreditar que não será sempre assim.
O grupo dos Domingos ainda é maior do que o dos malvados, brutos, violentos, ignaros rancorosos. Mão na mão, as mulheres do mundo estão usando a voz para virar o jogo. Pra melhor. Muito melhor.
Todas as mulheres do mundo é filme de 1966, outro século. Comédia romântica ou romântica comédia da vida, que tinha como protagonista Leila Diniz – uma das maravilhosas rebeladas do Brasil. Primeira mulher de Domingos, outra das nossas pioneiras em atrevimentos, usos e costumes. Pioneiríssima em levar a barriga de grávida pra praia de biquíni. Também amamentou em público. Tudo nos escuros anos 60.
Doce e risonhamente, Leila fez do corpo, cabeça, tronco e membros seu lugar de fala – com palavrões. Censurada e perseguida pelos tontos, reacionários de sempre, gravou na História espaço das atrevidas – as que mudam o mundo. Pra melhor.
Tânia Fusco é jornalista
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