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O ‘terrorismo’ que convém

Trump e Bolsonaro usam o “terrorismo” como muleta para a imaturidade democrática

Por Ricardo Noblat 5 jun 2020, 12h00 • Atualizado em 30 jul 2020, 18h53
  • Editorial de O Estado de S. Paulo (5/6/2020)

    As manifestações contra o racismo decorrentes do horrível assassinato de George Floyd extravasaram as fronteiras de Minneapolis e ganharam as ruas de algumas das principais cidades dos EUA, sobretudo da capital, Washington, e da Europa. A despeito da emergência sanitária, milhares de jovens têm se reunido todos os dias para clamar por justiça na punição do assassino, o policial Derek Chauvin, e pelo fim da rotineira violência policial praticada contra os negros, que sofrem tão somente pela cor da pele. Nos corações e mentes desses jovens, é como se a letalidade potencial do novo coronavírus fosse menos ameaçadora que o velho racismo estrutural que há muito tempo macula a história do país que arquitetou os pilares da democracia moderna. “Ninguém aqui esquece o receio de contrair a covid-19”, disse um dos manifestantes, “mas certas coisas precisam mudar.”

    Em questão de dias, manifestações que estavam restritas aos EUA irromperam em cidades da Holanda, da França e do Reino Unido, principalmente, e lá despertaram tensões locais adormecidas, muitas delas decorrentes de processos de colonização que resultaram numa massa de cidadãos alijados da distribuição dos ganhos advindos do desenvolvimento econômico e social nesses países. Em Paris, por exemplo, os manifestantes foram às ruas cobrar explicações sobre a morte de um jovem negro e pobre ocorrida há mais de quatro anos dentro de uma delegacia de polícia. Em Londres, milhares de pessoas ocuparam o Hyde Park e vocalizaram a dor e a revolta por casos que quase sempre têm o mesmo desfecho que o de George Floyd no Reino Unido. Em Berlim, manifestantes pintaram o retrato de Floyd num pedaço remanescente do Muro. O Brasil não ficou à margem desse movimento por um mundo mais justo. Há poucos dias, também houve uma manifestação contra o racismo em Curitiba. Embora não fosse a tônica da manifestação havida na Avenida Paulista, em São Paulo, no fim de semana passado, também houve lá protestos contra a violência racial, que foram desfigurados por radicais.

    É fundamental registrar que a maioria dessas manifestações ocorre de forma absolutamente tranquila, em que pesem registros de choques episódicos entre a polícia e os manifestantes nos EUA, na França, no Reino Unido e no Brasil. Ao analisar as manifestações, Karen Donfried, presidente do The German Marshall Fund of the United States (GMF), fundo de cooperação transatlântica inspirado no Plano Marshall, classificou o racismo como uma segunda “pandemia” que o mundo civilizado precisa urgentemente enfrentar. Em nenhum momento de sua reflexão, Donfried classificou os atos de protesto como “terrorismo”, o que só mostra quão absurdos são os presidentes Donald Trump e seu ventríloquo brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro, as únicas lideranças políticas a ameaçar usar força militar contra as manifestações de rua por sua suposta natureza “terrorista”. Não se pode dizer que o GMF, corolário da ação americana pela consolidação da democracia liberal na Europa Ocidental, seja “comunista” ou “esquerdista”.

    Não por acaso, Donald Trump e Jair Bolsonaro são os únicos presidentes que classificam os manifestantes como “terroristas” porque a nenhum dos dois interessa o crescimento dessas manifestações, que não só podem, como irão, mais cedo ou mais tarde, revelar críticas às suas administrações. No Brasil, aliás, isto já está ocorrendo. Aqui, o racismo ainda é uma pauta lateral nos protestos, direcionados em grande medida contra os diuturnos ataques de Bolsonaro contra a democracia e as instituições republicanas. Se povoadas por “terroristas”, portanto, justificar-se-ia, na visão da cúpula bolsonarista, o emprego das Forças Armadas para coibir tais manifestações, o que é um completo absurdo. Eventuais crimes praticados nestes atos são de competência das polícias estaduais, não das Forças Armadas.

    No fundo, tanto nos EUA como no Brasil, o que se observa é um flagrante desprezo de seus presidentes pelo escrutínio público e institucional, incapazes que são de liderar e fazer política no ambiente democrático, ou seja, sujeitos às limitações do sistema de freios e contrapesos.

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