O pai nosso de Bolsonaro
Senhor, não me apetece a política, apesar de quase 28 anos no Parlamento
Com essa pressão sobre o Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro pede licença aos pastores evangélicos e, na catedral de Brasília, apela aos céus em prece inspirada no Pai Nosso: “Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome”.
Proteja-me, meu Pai, por ver meu nome descendo do altar da glória seis meses depois da posse. Confesso, Senhor, que animo os do meu lado com frases e imagens da extrema direita – conservador nos costumes, liberal na economia, ansioso pela reforma da Previdência.
Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu. Venham a mim todos os políticos, principalmente o centrão e o Rodrigo Maia, a quem fustigo com “uma no cravo, outra na ferradura”. Não confio nesses do meu partido, PSL. Afaste de mim petistas e psolistas.
Senhor, não me apetece a política, apesar de quase 28 anos no Parlamento.
Convoquei amigos militares, mas desagrado quem não faz a lição de casa. Troquei o general Santos Cruz por um mais estrelado.
Agrada-me o poder, ser o centro do debate, o “mito”. Agora me preocupam as vaias. Vou rever essas idas ao futebol.
Pelo meu Reino – perdão, reeleição – serei capaz de mudar minha índole, fazer a vontade alheia. Confesso: o confessionário político não é minha praia. Só quero voltar aos braços do povo.
Agradeço, Senhor, por estar na cadeira presidencial. Por isso já entrei no círculo dos mais importantes do planeta, como meu amigo Trump, o chefão chinês Xi Jiping, a alemã Ângela Merkel e o jovial francês Emmanoel Macron, que me cobra coisas que desconhece, como a Amazônia. Repito: nosso país é uma virgem desejada por tarados.
– O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Ajude-me, Senhor, a manter o pãozinho e o frango de mais de 13 milhões de famílias do Bolsa Família. Não aliviei o sofrimento de 13 milhões de desempregados e de 12 milhões de subempregados. Um espinho na garganta. Mas confio no meu “posto Ipiranga” Paulo Guedes: o desemprego baixará no próximo ano.
Temo que o senhor Luiz Inácio seja libertado para zoar comigo. Ele, o PT e outros esquerdistas vão tentar bagunçar a eleição de prefeitos em 2020 e antecipar a de 2022.
Minhas galeras estão prontas para a guerra entre os três terços que dividem o país: um meu lado, outro da oposição e o terceiro olhando a direção do vento.
Ah, Senhor, é interessante ver o meu ministro Sérgio Moro aplaudido nas ruas, apesar de tudo. Mas terei de defenestrá-lo. Não o quero concorrente em 2022.
– Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.
Tento perdoar meus opositores, mas não aceito a tese de que o cara que me esfaqueou é desmiolado. Tudo armação.
Sei que falo demais. Saudades das ruas, Senhor. Gosto das palavras simples, limitado que sou. Assim agrado minha galera e a direita. Quem chegou a ser tão amigo de um presidente dos EUA? Dizem que agora eu brilho na constelação da Direita mundial.
Ajude-me, Senhor, a ter boa avaliação ao final do mandato.
E perdoai-me, Senhor, se eu cometer o desatino de nomear meu filho Eduardo embaixador nos EUA. Amém!
Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político
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