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O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O olhar de esperanças

O futuro ensaiava harmonia ambiental, desenvolvimento social, vida em segurança

Por Gaudêncio Torquato
3 fev 2019, 10h00 • Atualizado em 30 jul 2020, 19h59
  • Quando o olhar de esperanças começava a enxergar os umbrais do futuro, uma paisagem devastada por lama e rejeitos de ferro em território adornado por montanhas desvia a vista para uma horrenda fotografia do passado. Carlos Drummond de Andrade, em 1984, já descrevia: “O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse/Mais leve a carga. Entre estatais/E multinacionais/ Quantos ais!”

    O futuro ensaiava harmonia ambiental, desenvolvimento social, vida em segurança, com o homem tirando a riqueza da terra para seu pibizinho de felicidade. Era isso que se via pelas frestas do amanhã: um país retornando ao porto seguro, depois de anos de borrascas que sugavam as energias de seu povo.

    O passado contém curvas, artimanhas e aquele jeitinho herdado desde remotos tempos: a mamata nas tetas do Estado, o nepotismo, a apropriação indevida dos bens públicos, o amaciamento de leis, a devastação da natureza, as tragédias anunciadas com seus mortos enfileirados, o conluio político, a dinheirama no balcão de recompensas, os Poderes sob permanente tensão, entre outras mazelas.

    Até chegamos ao lema do comandante dessa que se apresentava como empresa-orgulho do Brasil, a Vale:“Mariana nunca mais”. Há 3 anos, o rompimento da barragem de Fundão em Mariana conferiu ao Brasil a marca do maior impacto ambiental da história. O maior do mundo. A barragem pertence à Samarco, propriedade da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton. O desastre de Mariana se repetiu.

    E o que se enxerga então? Desculpas esfarrapadas. Explicações que davam a barragem como segura. Bloqueios de bilhões da empresa, que retornarão pelo caminho longo do Judiciário. Endurecimento da legislação? Jair Bolsonaro e Romeu Zema, governador de MG, prometeram em campanha o contrário: amaciar, flexibilizar para desburocratizar. O novo governo está numa encruzilhada.

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    Sob a égide privatista, no guarda-chuva do  liberalismo da equipe econômica, o meio ambiente não deverá ser tão protegido. O agronegócio esticará seus braços sobre paisagens verdejantes. Pode até se reaver o projeto arquivado no Senado sobre endurecimento das leis ambientais. Receberá endosso das bancadas duras? Difícil.

    Não há, então, fresta na janela do amanhã para fazer brotar as esperanças? Só se for a do ministro Sérgio Moro, da Justiça, de onde  descortinaríamos melhor visão. Mas ele terá que aguentar o tranco e sustentar a força investigativa do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), de olho nas contas do senador eleito Flávio Bolsonaro. Moro está entre a cruz e a caldeirinha. Se o órgão for em frente, crescerá a montanha de suspeitas sobre o filho do presidente e outros protagonistas do jogo da “rachadinha”.

    Assim, o futuro continua preso ao cordão do passado. Esses laços são fortes e nossa cultura política se banhará por muito tempo em fontes contaminadas, talvez soterrada em lama e rejeitos em todo o território. Assepsia, só no longuíssimo prazo.

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    Até lá, com paciência e persistência e, sobretudo, fé, poderemos empurrar o balão da política na direção de novos ventos.

     

    Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político 

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