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O bolero que revive em Cuba com Ry Cooder e Ibrahim Ferrer

O produtor americano Nick Gold relata que quando esse homem entrou no estúdio, os músicos que lá estavam começaram a aplaudir

Por Flavio de Mattos
5 jan 2018, 16h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 17h47
  • Ibrahim_Ferrer
    Ibrahim Ferrer (Divulgação/Wikimedia Commons)

    Um dos maiores fracassos de crítica e público do cineasta Win Wenders é o filme The End of Violence (1997). O longa metragem custou US$ 5 milhões e faturou menos de US$ 400 mil. A película, no entanto, tem a grande importância de haver proporcionado o reencontro de Wenders com o guitarrista Ry Cooder, que tinha feito a trilha sonora de seu fantástico Paris,Texas (1984).

    Ao ser convidado para compor a trilha sonora de The End of Violence, Ry Cooder propôs um acordo inusitado ao diretor do filme. Pediu que, ao invés de receber seu pagamento em dinheiro, Win Wenders documentasse o projeto que Cooder estava desenvolvendo, com um grupo de músicos veteranos de Cuba.

    Ry Cooder havia estado em Cuba, gravando algumas velhas glórias da música cubana, que ele havia conhecido em 1976. Nessa época, junto com Dizzy Gillespie, Stan Getz e Earl Hines, Cooder esteve em uma turnê clandestina pela ilha, proibida para americanos. Nessa visita, Ry Cooder teve o primeiro contato com o bolero, o son e os vários gêneros daquela cultura musical tão rica.

    Em 1996, Cooder voltou a Cuba, onde se encontrou com o músico Juan de Marcos Gonzalez, que estava tentando promover a revitalização dos velhos estilos da música cubana. Eles foram procurar alguns daqueles músicos que Ry Cooder tinha escutado em sua visita, de vinte anos antes. Muitos estavam sem cantar ou tocar havia já vários anos.

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    Conseguiram localizar o pianista Rubén Gonzalez, que muitos pensavam nem estar vivo. O cantor e compositor Compay Segundo, que já contava então com 90 anos, mas ainda se apresentava pelo país. Também a cantora Omara Portuondo, que estava praticamente aposentada desde 1967. Assim teve início o projeto que se consolidou no álbum Buena Vista Social Club (1997) e, depois, no documentário de Win Wenders com o mesmo título, em 1999.

    Ainda no início das gravações, Cooder sentiu que faltava no grupo algum cantor, de voz suave, para interpretar um dos boleros selecionados para o repertório. Entre os músicos arregimentados, não havia nenhum com essas características. O produtor cubano Juan de Marcos lembrou-se de alguém que poderia suprir essa lacuna e saiu para tentar encontrar essa pessa.

    “De Marcos voltou, umas duas horas depois, acompanhado por um senhor muito magro, com uma roupa gasta, que se via ser um cubano bem pobre. Parecia um daqueles velhos cantores de blues”, descreve o próprio Ry Cooder. “Mas quando olhamos para a sua figura, vimos logo que era alguém com uma história por trás. Demos a ele o microfone, para ver o que aconteceria”.

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    O produtor americano Nick Gold relata que quando esse homem entrou no estúdio, os músicos que lá estavam começaram a aplaudir e passaram a tocar uma canção de Santiago de Cuba, em homenagem a ele. Seu nome era Ibrahim Ferrer. Havia sido um cantor muito famoso, mas vivia de engraxar sapatos porque a aposentadoria que recebia não dava para sustentar a família.

    “Quando ele começou a cantar Dos Gardenias, eu falei: Oh-my-gosh! Eu vinha esperando ouvir isso toda a minha vida”, retoma Ry Cooder a narrativa. “Agora nós temos algo verdadeiramente excitante, como ponto de partida para esse projeto”.

    A partir daí, o resto, é já História. Ibrahim Ferrer deixou de ser engraxate para se tornar a voz principal e a face do Buena Vista Social Club. É ele, com seu boné de golfe, que aparece na capa do disco, andando pelas ruas de Cuba.

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    O grupo ganhou o Grammy de Melhor Álbum Latino Tradicional no ano seguinte de seu lançamento. Ry Cooder ainda produziu o primeiro disco solo de Ibrahim Ferrer, que tem, entre outros o bolero Cómo Fue. Com esse disco, Ferrer ganhou, aos 70 anos, o Grammy de Melhor Artista Novo, em 2000. Ele ganharia ainda mais um Grammy, em 2003, como Melhor Álbum Latino Tropical, por seu disco “Buenos Hermanos”.

    O último trabalho de Ibrahim Ferrer foi o álbum Mi Sueño (2007), que teve as sessões gravadas em 2005, poucos dias antes de sua morte, aos 78 anos. Os tapes originais se perderam, tendo sido recuperados e mixados apenas dois anos depois. Nesse disco está o belo dueto entre Ferrer e a diva cubana Omara Portuendo, com o tema Quizás, Quizás.

    O filme Buena Vista Social Club, em que Win Wenders relata a trajetória e a vida dos músicos do grupo tornou-se um absoluto sucesso mundial. Além de ter sido nominado para o Oscar em 2000, ganhou inúmeros prêmios como melhor documentário, em importantes festivais em todo o mundo. Com um orçamento de US$ 2 milhões, o filme arrecadou mais de US$ 40 milhões. Uma enorme compensação para o fracasso de The End of Violence, que lhe deu origem.

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    No vídeo a seguir temos Ibrahim Ferrer cantando o clássico Perfídia, acompanhado pelo piano de Roberto Fonseca, e com os também veteranos Cachaito Lopez, no baixo; e Manuel Galván.

    Flavio de Mattos é jornalista, escreverá aqui sobre jazz a cada 15 dias. Dirigiu a Rádio Senado. Produz o programa Improviso – O Jazz do Brasil, que pode ser acessado no endereço: senado.leg.br/radio

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