Magic Mirror
A propaganda política, que já bate à nossa porta, é o espelho generoso da classe política.
Todo mundo tem um em casa. Se não tem, arranje logo. O espelho generoso é aquele, caseiro, do bem, que nos devolve sempre a melhor imagem.
Você passa por ele, dá aquela mirada e ó: tá uma belezura. O cabelo tá ótimo, o corpinho sarado, a roupa apropriada, o conjunto nada menos que perfeito.
Pronto. Você sai se achando, Gisele Bündchen perde. Com sorte irá até o final do dia no conforto da formosura garantida pelo companheiro espelho no papel de mágico.
Sem sorte, encontrará vilões – um vidro espelhado, uma vitrine ou, pior, outro espelho – defeituoso, claro! Todos demônios mal-intencionados capazes de refletir o contrário do miroir amigo. Pronto. Lá se vai a segurança conquistada no magnânimo e fiel refletor doméstico.
Você só não vai a óbito porque, em algum momento, reencontrará a generosidade do seu espelho, aquele que não falha – sempre lhe apresenta a melhor versão da sua estampa. E, benção, acredita nele e nela.
A propaganda política, que já bate à nossa porta, é o espelho generoso da classe política.
Mais caro do que o nosso comparsa caseiro. Também muito mais mágico. Vai bem além da ilusão de ótica na aparência física. Oferece mudanças reais. Banhos de loja, cabelereiro, dentista, etc. E ainda o fotoshop dadivoso que salva o que não houve jeito de ajeitar até aí.
Depois, é só embelezar o passado e dourar o futuro. Mega fácil! Receita antiga, batida, testadíssima. A cada dois anos, só incorporar o que pintou de novo em recursos audiovisuais, digitais e novas linguagens – todas devidamente testadas e aprovados.
Para este 2018, a receita pronta foi modelada na campanha vencedora de Mister Trump. Será aplicada aqui com pequena inversão – os americanos farão o papel de russos. Moleza. Já estão fazendo isso desde os patalógicos amarelos.
E, de novo, por 35 dias, o espelho generoso da propaganda e vai saturar olhos e ouvidos com promessas de salvação para as eternas debilitadas segurança, saúde e educação, juras de combate à corrupção, além de magias para criação de empregos e a salvação da economia.
O catecismo de sempre, enfim. E, a julgar pelo desenho do quadro eleitoral, sem surpresas. A previsão é que 90% dos atuais detentores de mandato tentarão a reeleição. Nos 10% reservados para renovação teremos na disputada o que mesmo? Tchan, tchan, tchan, tchan! Majoritariamente, parentes de políticos da ativa. O bem e o mal estão nessa bagaça.
Ou seja, mais do mesmo. O de sempre. De novo, embalados, enfeitados e engalanados pelo velho e eficiente magic mirror da propaganda.
Diferente de nós mortais, eles, os candidatos, não irão a óbito se exibidos em espelhos nem mágicos, nem generosos.
PS.: Tudo às claras. Todos carecas de saber. Os gatos não são pardos e estão pra lá de escaldados. O petróleo não é mais nosso. As aparências não enganam. A voz do povo não é de a Deus. Faz tempo que um dia tem sido da caça, o outro também. Se parir Mateus, sifu.
Tânia Fusco é jornalista, mineira, observadora, curiosa, risonha e palpiteira, mãe de três filhos, avó de dois netos. Vive em Brasília. Às terças escreve sobre comportamentos e coisinhas do cotidiano – relevantes ou nem tanto







