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O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Escrevo para não esquecer

Diário de Avô – Uma celebração à vida

Por Ricardo Noblat
7 abr 2020, 13h00 • Atualizado em 30 jul 2020, 19h02
  • 21.1.2008

    Luanda, 27 de agosto de 1991

    Para André, Gustavo e Sofia

    Meus filhos: conversei, hoje, longamente com um homem experiente em lidar com animais. Ele me disse que a onça é o animal mais perigoso que existe. Mais perigoso do que o leão, o leopardo, o elefante, qualquer outro.

    Não se tem muito que fazer diante de uma onça. Se der tempo, a pessoa deve correr e tentar subir em uma árvore muito alta. Um homem forte, muito forte, é capaz de matar uma onça com um murro se acertá-la na cabeça entre os olhos. Esse é o ponto fraco da onça.

    O homem me disse que o leão é um animal covarde. Diante de um leão, a pessoa tem que ficar parada, sem se mover de jeito nenhum. O leão não fará nada e irá embora. Mas se a pessoa correr, ele atacará.

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    Bem, mas se o leão for embora, preparem-se. Porque, na verdade, ele foi apenas se esconder para mais adiante atacar a pessoa de surpresa. Nesse caso, o melhor é a pessoa voltar pelo mesmo caminho que estava indo e com muito cuidado.

    A leoa, mulher do leão, é perigosíssima. Ela ataca mesmo que a pessoa fique parada. Se a leoa estiver acompanhada de filhotes, aí o ataque é certo. O jeito é a pessoa atacada tentar correr e subir em uma árvore, a mais alta possível.

    Se a leoa estiver acompanhada do leão, ela atacará a pessoa, o leão, não. Por isso, diante de um casal, se a pessoa estiver armada deve atirar na leoa, não no leão. Se atirar nele, a leoa atacará e a morte será certa.

    Também não se tem muito que fazer diante de um rinoceronte. A saída é correr e subir em uma árvore alta. Alta e muito forte. Porque se a árvore for fraca, o rinoceronte a derrubará.

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    Na fuga, a pessoa deve correr na direção de árvores que estejam caídas, de obstáculos que possa pular. O rinoceronte terá dificuldades para ultrapassar os obstáculos. Vai tentar contorná-los e perderá tempo.

    Quanto ao elefante, disse o homem que ele é um animal pouco inteligente. Diante de um elefante, a pessoa deve parar e não fazer movimentos. Assim dificilmente será atacada. O elefante só fará isso se a pessoa correr ou se ele estiver acompanhado de filhotes.

    Para fugir de um elefante, a pessoa deve correr em ziguezague. Vocês sabem o que é isso, não sabem? Ao correr em ziguezague, a pessoa deve fazer curvas para a esquerda o tempo todo. O elefante é um bicho que tem dificuldades de fazer curvas para a esquerda.

    Existe outra forma de enganar um elefante: a pessoa deve descobrir para que lado o vento sopra mais forte. Como descobrir? Basta que pegue um pouco de terra, levante a mão o mais alto que possa e solte a terra. Ela será empurrada pelo vento para algum lado. Significa que o vento está soprando para aquele lado. A pessoa então poderá se quiser chegar pertinho do elefante desde que avance no sentido contrário ao vento. O elefante não perceberá a aproximação da pessoa. A não ser que ele a tenha visto antes.

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    Entenderam? Ou essa parte do elefante ficou confusa?

    Espero que nunca vocês encontrem pela frente uma onça, um leão, um rinoceronte ou um elefante, a não ser em jardim zoológico. Mas se encontrarem já sabem o que fazer.

    Um beijo grande. Estou com muita saudade de vocês.

    (Escrevi essa carta quando era diretor de marketing político da Propeg, agência baiana de publicidade. Estava fora do jornalismo desde o final de 1989. A Propeg havia sido contratada para cuidar da campanha eleitoral do presidente José Eduardo dos Santos e do Movimento Popular pela Libertação de Angola. André tinha 12 anos, Gustavo 10 e Sofia, sete.

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    Escrevo para meus filhos desde antes de eles nascerem. Escrevo para não esquecer.

    O tal homem experiente em lidar com animais era o general Kundy Paihama, na época governador de Luanda.

    O que chamo de “Dário de Avô” é na verdade um diário sobre a passagem do tempo. Deixarei de publicá-lo depois que nascer Luana, filha de Sofia. Ela teima em não vir. Não sabe que virá de um modo ou de outro até a próxima quinta-feira. Abusa da paciência de todos os que a esperam ansiosos.

    Atualização das 21:15 – À falta do que fazer, e sem o menor sinal do que está por vir, Sofia decidiu esta noite arrumar novamente a mala com os pertences de Luana. É a terceira vez que ela faz isso desde a semana passada. A essa altura, quando finalmente der as caras, Luana corre o risco de ser recepcionada com uma sonora vaia. Há mais de 20 anos, na Praça do Ferreira, centro de Fortaleza, os cearenses vaiaram um eclipse do sol.

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