Deus, o Diabo, e Cassandra na Terra do Sol
Aparentemente, Lúcifer tinha algum tempo sobrando enquanto construía o inferno nos trópicos.
Sem nunca entender direito de onde veio a noção, cresci ouvindo que Deus é brasileiro. O tempo todo. Em todo lugar. Sempre como verdade incontestável, indiscutível. Obvia mesmo.
Repetição, a gente sabe, tem o poder de convencer. Mesmo sem evidencia. Especialmente sem contestação. De tanto ouvir, a gente, no mínimo, acaba aceitando. Ou nos casos mais extremos, acreditando.
Considerada verdadeira a hipótese da nacionalidade de Deus, resta determinar sua residência atual. Se for brasileiro mesmo, é improvável que esteja ainda no país. Possivelmente pense como os 62% dos jovens brasileiros que aspiram mudar de pais (https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/06/se-pudessem-62-dos-jovens-brasileiros-iriam-embora-do-pais.shtml ).
Mesmo para quem pode tudo, talvez mudar o país tenha se convertido em tarefa impossível. Mais fácil mudar de país. Provavelmente cuidar de imigrantes cubanos em Miami seja tarefa mais fácil. Ou simplesmente aproveitar a vida em Portugal valha mais a pena. Brasileiro dá muito trabalho.
Na ausência de Deus, o diabo não perdeu tempo. Ou melhor, investiu no tempo. O tinhoso é estratégico. Pensa a longo prazo. Não tem pressa. Começou a trabalhar logo depois que os portugueses esbarraram por ali.
Demorou mais de 500 anos, mas a obra parece perto da conclusão. Enquanto amassava pão, Asmodeo investiu na ignorância. Nada garante mais um inferno eficiente que analfabetismo (funcional ou não), ignorância e falta de informação. Maldade das boas demora tempo para fabricar.
Não parece ter dado muito trabalho. Aparentemente, Lúcifer tinha algum tempo sobrando enquanto construía o inferno nos trópicos. Tudo indica, gostava de mitologia grega. Talvez inspirado nela, tenha infestado os trópicos com a maldição de Cassandra.
Criou estranho povo. O brasileiro é sempre capaz de perceber os problemas. Não discute que existem. Analisa-os ad nauseam, autocondenados que estamos ao labirinto retorico no qual entramos sem razão alguma.
Prevemos com precisão as consequências de nossas mazelas. Descrevemos em cores vívidas as lamas que nos espera. Mas empurramos a golpes de abdômen qualquer tentativa de resolve-las.
O diabo nos deu o dom da profecia, mas retirou nossa capacidade de acreditar nelas, e, consequentemente, evitar as inúmeras catástrofes e desgraças que a gente assiste, todos os dias, ao vivo, na primeira tela disponível.
Enquanto isso, assistimos tratamos como comédia, a tragédia de promessas eleitorais requentadas, velhas, obscuras e sem sentido. Condenados a trabalhar com Belzebu na construção do nosso inferno tropical.
Elton Simões mora no Canadá. É President and Chair of the Board do ADR Institute of BC; e Board Director no ADR Institute of Canada. É árbitro, mediador e diretor não-executivo, formado em direito e administração de empresas, com MBA no INSEAD e Mestrado em Resolução de Conflitos na University of Victoria. E-mail: esimoes@uvic.ca .
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