Não há dúvida de que o sistema institucional brasileiro está sofrendo de oclusão, pois não consegue dar curso digestivo às tensões, episódios e escândalos nos últimos tempos. Vale relembrar a incrível sequência de eventos desde o mensalão, passando pela Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a eleição de Jair Bolsonaro, o interminável “inquérito do fim do mundo”, os atos golpistas do 8 de Janeiro, a judicialização da política promovida por partidos e governo e o ativismo, algumas vezes desenfreado, do próprio Judiciário. Mais adiante tivemos os escândalos do INSS e do Banco Master. Não é fácil para nenhum sistema político do mundo, ainda menos para a nossa capenga democracia, que claudica a cada episódio mais grave.
Posta a situação, cabe especular sobre o que fazer. Se existisse um gastrocirurgião institucional seria mais fácil. Mas não há. Como desobstruir os canais institucionais? Não haverá solução de curto prazo, salvo um episódio inesperado e determinador de mudanças bruscas do cenário. Por quê? Pela desconexão dos tempos. O tempo do STF, por exemplo, é geológico, move-se lentamente até que, de repente, pode provocar um terremoto. Porém, em tempo de autodefesa, opera em passos de formiga e sem vontade. O tempo do governo é o de gastar o tempo, evitando confrontos e movimentos bruscos. O governo quer chegar logo às eleições para tentar fazer valer seu magro favoritismo. O tempo do Legislativo é o eleitoral. Todos correm para renovar seus mandatos e, consequentemente, suas proteções para as tempestades em curso. Na linha de que “amanhã será outro dia” ou “deixa estar para ver como é que fica”. Já o tempo dos vazamentos seletivos é o hipersônico, que ocorre a uma velocidade incrível e impacta o ambiente de forma variável. Às vezes é um drone, às vezes uma granada, ou pode ser um míssil altamente destruidor. É aí que mora o perigo para os potenciais envolvidos. Vazamentos são incontroláveis e, dado o potencial da crise, podem ser devastadores.
“O que foi chocante ontem torna-se rotina amanhã. E a democracia perde não só eficiência, mas legitimidade”
Claramente, a agenda da crise para a maioria dos protagonistas é a de atrasar a digestão. Ir dando tempo ao tempo para ver se o tema Master-STF-Congresso se torna mais um de tantos. Como as suspeitas e indícios — e até algumas evidências — são comprometedores, pode ocorrer a tentativa de impor uma espécie de Omertà, código de silêncio e não cooperação com investigações. O silêncio protege a todos.
Mas, como tudo na vida, eventos como os atuais estão submetidos ao acaso. Por exemplo, um motorista de Fiat Elba ou um caseiro que sabia demais mudaram o curso da política nacional. Na espera do imponderável, o Brasil fica suspenso entre a contenção da crise, um fato novo hipersônico e o cansaço. E é precisamente nessa suspensão que reside o maior risco sistêmico: a normalização do inaceitável. Quando os escândalos acontecem em velocidade superior à capacidade institucional de processamento, a sociedade vai perdendo os parâmetros do que é tolerável. A oclusão deixa de ser um estado de exceção e passa a ser o estado permanente. O que foi chocante ontem torna-se rotina amanhã. E a democracia, já claudicante, perde não só eficiência — perde legitimidade.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986







