As eleições presidenciais deste ano são um evento propício a surpresas. O presidente Lula (PT), na condição de dono da caneta e do poder de fazer benesses, é o favorito, mas com evidentes fragilidades, que podem comprometer o seu favoritismo. Quais são elas? São tantas que poderiam compor um dicionário. O primeiro aspecto reside no próprio governo, que é desunido, não se comunica bem, polemiza sem necessidade e não sabe aproveitar as boas notícias que produz. Não há simpatia nem coleguismo dentro do governo. É cada um por si e Lula por todos. Sem sombra de dúvida, não deveria ser assim. Até porque falta energia e falta disposição por parte do presidente para unir o governo em torno de si, tendo em vista a campanha. Nem mesmo as boas notícias são comunicadas eficientemente. Não basta entupir a TV de anúncios. Comunicar estrategicamente é muito mais do que isso. Tempos atrás, em 2019, atribuiu-se o fracasso do PT nas urnas à sua falta de familiaridade com as redes sociais. O tempo passou e Lula tem hoje apenas a metade dos seguidores de Jair Bolsonaro (PL). Claramente, é uma questão de narrativa, em que se busca configurar a sociedade ao discurso, e não o discurso às circunstâncias do mundo.
O segundo aspecto é a fragilidade dos palanques estaduais, em especial, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, além do Sul e do Centro-Oeste de maneira geral. Lula não terá palanques fortes em estados relevantes, salvo São Paulo. Até em regiões onde ele é tradicionalmente forte, a situação não é muito confortável. Sem empatia e sem gestos concretos para o centro da política, Lula dependerá de estruturas frágeis do PT que, além do mais, está escravizado por uma narrativa dos primórdios do século XX. As lideranças do PT envelheceram e os novos quadros não têm relevância ou não são bem aproveitados.
“Em um país de alma autoritária, a responsabilidade pelas questões polêmicas respinga no chefe”
O terceiro aspecto a considerar refere-se ao ambiente político atual, abalado por sucessivas crises e escândalos. Em um país de alma autoritária, a responsabilidade pelas questões polêmicas respinga, no mínimo, no chefe, que é o presidente. Pior ainda se os escândalos atingirem sua família e/ou aliados. O conjunto das circunstâncias hoje não é bom. E mais: a questão da segurança pública também é percebida como grave fragilidade do governo. E, ainda que o governo se empenhe em aprovar leis, a população quer voltar a ter a sensação de que ele está realmente engajado no problema.
O quarto aspecto é circunstancial: trata-se da evidente fragilidade decorrente das repercussões econômicas do conflito no Golfo Pérsico. Caso a situação se agrave, poderá ter o efeito, mesmo mitigado, do apagão dos tempos de FHC 2. Não há como prever a duração do conflito, porém, a impressão é de que o governo reage à crise sem ter um plano para aplacar nossas vulnerabilidades no campo dos combustíveis. Ainda bem que temos o etanol e o biodiesel.
Enfim, o quadro para Lula não é bom. Mesmo considerando que ele é melhor candidato do que presidente e que ainda tem o controle da generosa máquina pública — que não economiza ao distribuir benesses —, a situação pode piorar. Basicamente, sua estratégia tem sido explorar o antibolsonarismo. Mas isso pode não ser suficiente para a expressiva parte do eleitorado que está cansada da polarização. No fundo, as eleições estão em aberto e o favoritismo de Lula precisa ser confirmado. Ainda não foi.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988





