Entramos em época delicada para candidatos às eleições gerais do ano que vem. Tempos em que tudo é contabilizado como ganho ou perda, especialmente para quem concorre a cargos majoritários. Eventos, declarações, decisões, omissões e o acaso podem afetar o desempenho eleitoral e até os resultados.
A teoria do caos popularizou a metáfora do “efeito borboleta”: o bater de asas de uma borboleta na Ásia poderia contribuir para uma tempestade na América do Norte. O ponto central é a sensibilidade extrema de certos sistemas às suas condições iniciais. Em estruturas complexas, pequenas causas geram consequências inesperadas e enormes. A política eleitoral é exatamente esse tipo de sistema: múltiplos atores, narrativas concorrentes, redes sociais, interesses econômicos e eventos aleatórios convivem num ambiente permanentemente instável.
Um dos vetores centrais dessa dinâmica é a agenda pública. Uma frase mal colocada, um comentário infeliz captado em vídeo ou um gesto desrespeitoso podem virar, quase instantaneamente, a pauta dominante. O candidato deixa de comandar sua narrativa e passa a reagir. A imprensa multiplica, adversários exploram e as redes amplificam. Em poucos dias, um episódio periférico converte-se no eixo interpretativo da candidatura.
Outro mecanismo típico é a mudança das expectativas. Pesquisas funcionam como gatilhos de realinhamento. Um pequeno crescimento de candidato antes secundário pode reorganizar apoios, provocar voto útil e atrair recursos. Doadores liberam verbas, partidos reavaliam estratégias e lideranças reposicionam palanques. A reação desencadeada pelas expectativas muitas vezes é mais poderosa que o dado original.
“Tudo passa a ser contabilizado como ganho ou perda, especialmente para quem concorre a cargo majoritário”
No plano das elites, pequenos fatos também produzem grandes ondas. Um áudio vazado, um relatório interno ou um gesto inesperado de governador podem desencadear rearranjos imediatos. A judicialização opera igualmente como mecanismo de efeito borboleta: uma decisão aparentemente técnica — indeferimento de candidatura ou mudança de regra de TV — pode redefinir o tabuleiro.
As redes sociais aceleraram essa lógica. Um meme, um corte de três segundos ou um boato podem se multiplicar a ponto de definir percepções duradouras. A viralização tornou o sistema eleitoral ainda mais sensível.
Nem todo fato possui força para deflagrar uma cascata. O efeito borboleta exige ambiente tensionado e narrativas prontas para receber o gatilho. Um comentário só vira crise quando encaixa em percepções já existentes; um vídeo só se torna devastador quando reforça estereótipos previamente consolidados sobre o candidato.
O efeito borboleta revela um traço essencial da política contemporânea: eleições são sistemas de alta volatilidade, em que detalhes aparentemente irrelevantes alteram trajetórias inteiras. Um sistema vivo e caótico, no qual o destino de grandes disputas, às vezes, nasce do bater de asas de uma borboleta.
Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2025, edição nº 2973
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