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Murillo de Aragão

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Meu nome é volatilidade

Anos complicados costumam levar a escolhas complicadas

Por Murillo de Aragão 8 jan 2022, 08h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 12h26
  • Prazer, sou o ano-novo, mas pode me chamar de volatilidade. Minha tônica é a dúvida, pois ninguém sabe com precisão o que vai acontecer. Mas existem “anos-novos” mais incertos que outros, já que carregam equívocos e hesitações do passado recente que podem se refletir nos acontecimentos vindouros.

    Como sou especial por conta das eleições de outubro, para os analistas políticos e os jornalistas sou como um champanhe millésime. Ao contrário de um Dom Pérignon, porém, o resultado final pode não ser dos melhores.

    E por quê? Essencialmente porque, como algo novo, trago também comigo o acaso, o inesperado e o desconhecido, que batem à porta. Por exemplo, mal cheguei e o presidente Jair Bolsonaro já foi parar num hospital mais uma vez. Como dizia Machado de Assis, o inesperado sempre tem voto decisivo nos acontecimentos.

    Também carrego na mochila a teimosia de muitos em não reconhecer a gravidade dos fatos. Por exemplo, a cada vez que acham que a pandemia vai acabar e, no entanto, ela ressurge — mais fraca ou mais forte, mas sempre causando danos e incertezas.

    No ano-velho, uma mente “inteligente” inventou uma consulta pública para descobrir se se deve vacinar crianças contra a Covid-19. Imaginem se fossem fazer consulta pública para todas as vacinas, em vez de simplesmente consultar os especialistas que conhecem a resposta? É o triunfo da ignorância sobre a ciência.

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    Assim, com tantos erros grosseiros no ano passado, a carga que terei de arrastar, no Brasil, é perigosa: pandemia, inflação, desemprego, desabastecimento, colapso do sistema de saúde, aumento da criminalidade. Com todas as suas consequências.

    “Dificuldades levam a narrativas com soluções fáceis, baseadas em demagogia e clientelismo”

    Os aspectos mencionados estão postos e não são meras possibilidades. Um desaquecimento da economia já foi contratado e nem mesmo a injeção de auxílios emergenciais, ou algo do tipo, despertará a atividade, que certamente viverá tempos de juros altos.

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    Anos complicados costumam gerar escolhas eleitorais complicadas. Isso porque o calor dos acontecimentos acaba determinando o resultado do pleito, em detrimento das questões de fundo que o país deveria enfrentar.

    As dificuldades do ano poderão reforçar as narrativas que apresentam soluções fáceis, por meio de demagogia e clientelismo. Mas o eleitor, tal qual Carlos Lacerda um dia recomendou, não deve acreditar em políticos que propõem soluções fáceis.

    Como ano-novo, mal entrei na cena. Mas observo que a polarização eleitoral hoje disseminada no país não permite uma visão clara do que vem pela frente nem tampouco de quais seriam as melhores soluções para cada problema.

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    Bolsonaro parece um Pac-Man sem energia, correndo dos adversários e dos problemas que cria. O ex-presidente Lula continua no vestiário, enrolando para não ter de entrar em campo mais cedo. Os demais interessados em disputar a vaga de presidente no Palácio do Planalto lutam para se qualificar e obter a promoção para a Série A das eleições.

    Não ponham a culpa em mim. Sou mais ou menos como 1942 na II Guerra Mundial. Naquele ano, ainda não se sabia quem ia ganhar a guerra, mas já se tinha certeza de que a situação ficaria volátil e ruim por algum tempo.

    Publicado em VEJA de 12 de janeiro de 2022, edição nº 2771

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