A política costuma ser narrada como o reino das grandes decisões, dos pactos históricos e dos movimentos calculados. Mas, na prática, ela também é moldada por gestos miúdos, ritos respeitados — ou ignorados — e escolhas que parecem secundárias no momento em que são feitas. Poucos episódios ilustram isso tão bem quanto a eleição presidencial de 1989.
Leonel Brizola tinha uma estratégia clara: precisava de um vice mineiro para ampliar sua competitividade nacional. Por sugestão do então senador Maurício Corrêa, o nome de Itamar Franco foi escolhido. O acordo estava encaminhado. Faltava o gesto decisivo: o convite pessoal. Brizola deveria ir a Brasília para formalizá-lo, mas desistiu da viagem e tentou resolver tudo à distância, enviando um avião para buscar o senador. Itamar recusou. E foi direto ao ponto: se quisessem que ele fosse vice, que fossem à sua casa convidá-lo. Não foram.
O detalhe, aparentemente banal, teve consequências profundas. Fernando Collor, atento à importância de Minas Gerais, rapidamente se aproximou de Itamar e fez o convite nos termos esperados pela liturgia política. Itamar aceitou. Brizola, sem alternativa regional equivalente, compôs chapa com Fernando Lyra — nome respeitado, mas incapaz de produzir o mesmo efeito eleitoral. O resultado é conhecido: Brizola perdeu, por margem mínima, a vaga no segundo turno para Lula. Collor, com um vice mineiro forte, ganhou densidade em um dos maiores colégios eleitorais do país e venceu a eleição.
“No pleito de outubro, a definição do vice será crucial para quem disputar fora do campo governista”
A escolha do vice é decisão estratégica frequentemente subestimada. Um vice bem escolhido amplia a base eleitoral, trazendo credenciais que o cabeça de chapa não possui — penetração regional, legitimidade setorial, ou ponte com segmentos resistentes. José Alencar conferiu a Lula em 2002 o diálogo com o empresariado que sua biografia sindical não alcançava. Michel Temer trouxe a Dilma a capilaridade congressional do PMDB. Outros vices passaram despercebidos, sem marca positiva ou negativa.
A lição permanece atual. Em 2022, Bolsonaro dispensou Hamilton Mourão, que mantinha alguma penetração entre eleitores moderados — justamente onde o presidente enfrentava maior resistência. Em eleição decidida por margem mínima, a troca custou caro. Do outro lado, Lula apostou em Geraldo Alckmin: escolha que reforçou estabilidade e consolidou pacto com o centro, embora com impacto eleitoral limitado.
O ponto decisivo está adiante. Na eleição de outubro, a definição do vice será crucial para quem disputar fora do campo governista. A história mostra que eleições não se perdem apenas por grandes erros. Às vezes, perdem-se por não ir à casa certa, no dia certo, fazer o convite certo.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





