Conflito, poder e autopreservação
As instituições estão em uma espécie de “salve-se quem puder”
O calendário eleitoral empurra os principais atores institucionais para um jogo de poder onde as prioridades são minimizar riscos, maximizar controle de agenda e colocar a culpa nos demais atores. Nesse ambiente, temas que deveriam organizar qualquer debate sério sobre “projeto de país” — segurança pública, endividamento e credibilidade fiscal, qualidade da educação, produtividade e eficiência do Estado — seguem periféricos, quando não ausentes. Com a pauta plena de escândalos e operações, os temas centrais estão ficando de fora.
Dada a gravidade da situação, todos os atores estão, ao mesmo tempo, em posição de força e de fraqueza. O governo busca no STF um eventual fator de proteção e de pressão institucional, mas sabe que o Congresso pode se rebelar e travar a governabilidade. O Centrão tem poder de veto e controla engrenagens decisivas do Orçamento, mas vem sendo gradualmente enfraquecido por divisões internas, desgaste público e tentativas coordenadas de reduzir sua centralidade. Há ainda as investigações relacionadas às emendas orçamentárias. O STF tem capacidade de “legislar” na prática ao arbitrar conflitos e preencher lacunas, mas sua legitimidade é questionada com intensidade crescente, elevando o custo político de cada nova intervenção. Além das recorrentes ameaças de aprovação de propostas que limitam o seu poder.
“Temas que deveriam organizar um debate sério de projeto de país seguem periféricos ou ausentes”
Como o ano está apenas começando e a agenda transborda de crises e polêmicas, fatos novos ditarão o ritmo político e a temperatura das eleições. Não somente por ser a primeira eleição presidencial brasileira sob o império da IA, em meio a um tiroteio institucional, mas porque tende a ser um ano de muito barulho (operações, escândalos, negociações), pouquíssimas reformas estruturais e um “salve-se quem puder” institucional. Nesse quadro, a pauta pública se move ao sabor do choque do dia, enquanto as soluções de longo prazo ficam para depois. Em outras palavras, 2026 não será o ano do “novo pacto”; será o ano do teste de resistência do sistema — e do quanto ele aguenta.
A esta altura dos acontecimentos, a polarização prossegue prevalecendo com uma discreta surpresa: a performance de Flávio Bolsonaro, que em uma campanha silenciosa está em uma situação de empate técnico com o presidente Lula. Evidente que é cedo para profetizar resultados, mas o seu desempenho surpreende. O que também surpreende é Lula permitir ser homenageado por uma escola de samba com um enredo que agrediu setores importantes da sociedade. Para quem ainda é o favorito na corrida presidencial, menos é mais.
Institucionalmente, cada um dos três poderes da República está com a cabeça nas eleições. O Legislativo e suas lideranças buscam a reeleição, assim como o presidente da República. O Judiciário prioriza a autopreservação em um ambiente instável e de muitas críticas. A leitura do momento revela que ainda não há um vencedor claro. Mas existe um perdedor inconteste: a cidadania, que assiste às instituições em um conflito aberto a partir de agendas específicas às portas das eleições gerais. O que nos mostra que a agenda de 2027, em vez de ser de recomeço, poderá ser — na melhor das hipóteses — de reparação.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984





