Janeiro sempre chega com água farta em Brasília. O céu fecha, a umidade sobe, as tempestades se formam rapidamente e, em poucas horas, o que parecia rotina vira alagamento. O curioso é que, no Brasil, esse padrão climático encontra um paralelo quase perfeito no funcionamento das instituições. Assim como a cidade parece precisar da chuva para se reorganizar, o sistema político nacional parece depender da crise para se mover. Parece que o país só reage quando o mau tempo se instala. Na bonança, as engrenagens rangem, a agenda emperra, o planejamento some do radar. Na tempestade, surgem decisões rápidas, pactos improvisados e uma coordenação que raramente se vê em tempos normais.
O calendário ajuda a explicar. Janeiro é mês de recesso, transição administrativa e expectativas difusas. Mas também é quando problemas acumulados transbordam. Déficits ocultos reaparecem, crises regulatórias emergem, conflitos entre poderes ganham novo fôlego. A água que cai do céu funciona como metáfora de um sistema que só se dispõe a agir quando pressionado pelo risco imediato. O novo ano, contudo, não herda apenas os problemas de sempre. Herda a mais grave crise institucional desde o golpe militar de 1964 — uma crise que não eclodiu de repente, mas que vem se avolumando ao longo deste século, alimentada por tensões sucessivas entre os poderes, pela erosão da confiança nas instituições e por um modelo de governança que há muito dá sinais de esgotamento. O 8 de janeiro de 2023 foi apenas a erupção mais visível de um vulcão que já fumegava havia anos.
“A água que cai do céu funciona como metáfora de um sistema que só se dispõe a agir quando pressionado pelo risco imediato”
Nesse cenário, a agenda legislativa de 2026 será decisivamente influenciada por dois vetores que se reforçam mutuamente: o conflito institucional ainda não resolvido e o ciclo eleitoral que se avizinha. Na prática, isso significa um Congresso em que cada ator cuida prioritariamente de si. Deputados e senadores calcularão cada voto pensando nas urnas. O Executivo medirá cada gesto pela repercussão na campanha. E o Judiciário seguirá oscilando entre a contenção e o protagonismo. Reformas de fundo tendem a ficar para depois. O Brasil se acostumou a governar no modo emergência. Reformas avançam apenas quando há colapso fiscal à vista. Ajustes institucionais só prosperam após escândalos ruidosos. A cooperação entre os poderes costuma surgir não por vocação, mas por medo do transbordamento. Passada a tormenta, volta a estiagem decisória: comissões esvaziam, projetos dormem, diagnósticos ficam nas gavetas. Esse vício tem custo alto. A previsibilidade se perde, o investimento recua, a confiança pública se desgasta. A exceção vira norma, e a regra perde autoridade. Governa-se pelo improviso, não pelo planejamento; pela urgência, não pela estratégia. Como em uma cidade que nunca investe em drenagem, prefere-se lidar com o alagamento a prevenir a enchente.
As chuvas de janeiro, portanto, não são apenas um fenômeno meteorológico. Elas anunciam, simbolicamente, um ano em que as tensões institucionais tendem a se intensificar. O céu pesado sobre a Praça dos Três Poderes reflete um sistema que segue dependente da tempestade para funcionar. Enquanto o país não aprender a operar sob céu aberto — com instituições capazes de agir sem o empurrão da crise —, janeiro continuará sendo mais do que o início do ano. Será o prenúncio de novas tormentas políticas. E as águas de março, que fecham o verão, ainda estão por vir.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977
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