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Por Murillo de Aragão
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A última carga da cavalaria

Precisamos encerrar a agenda do século XX para encarar o futuro

Por Murillo de Aragão Atualizado em 14 fev 2020, 10h32 - Publicado em 14 fev 2020, 06h00

Apesar do avanço relevante na agenda das reformas a partir de 2016, ao tratarmos das reformas tributária e administrativa estamos lidando com temas remanescentes do século XX. E com muito atraso. Além disso, estamos atrasados por não termos um Banco Central independente, um novo marco regulatório para o saneamento e mais segurança jurídica para concessões, entre outras tantas carências para que o Brasil deslanche seu potencial econômico e humano. Em tempo: a questão do saneamento é tema do século XIX que teima em prosseguir em nossa agenda.

Na prática, o Brasil vem evoluindo com o freio de mão puxado. Xenofobia, intervencionismo estatal, burocracia, corrupção e corporativismo se abrigaram em um nebuloso arcabouço nacionalista-esquerdista que andou predominando no imaginário político. Apenas após o providencial impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, conseguimos destravar a agenda. Mesmo assim, ainda perdemos muito tempo.

Como o futuro não espera, vai arrombando as portas e nos deixando para trás com as agendas do passado nas mãos. E, para atender a essas agendas, temos quase 2 milhões de bacharéis em direito, entre outras muitas inutilidades para os tempos atuais. No entanto, não temos engenheiros e matemáticos para os desafios do presente. E, se não temos profissionais suficientes para a agenda de agora, imagine para a agenda do futuro.

“Temos 2 milhões de bacharéis, entre outras muitas inutilidades para os tempos atuais”

Parte significativa do contingente de desempregados de agora não tem empregabilidade na economia de hoje e dificilmente terá espaço na economia do futuro. E esse quadro tende a se agravar, devido ao baixo investimento em educação e em pesquisas no país. Muitos continuarão dependendo de políticas assistenciais do governo.

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De um lado, milhões de empregos serão extintos pelo uso intensivo da inteligência artificial. O Banco Mundial calcula que 800 milhões de postos deixarão de existir no mundo até 2030. De outro lado, a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação estima que em 2024 teremos um déficit de mão de obra qualificada para o setor em cerca de 50% da oferta. Estamos entre a cruz e a espada: extinção de empregos por causa da tecnologia e carência de profissionais para lidar com os novos tempos. O Brasil deve, sob pena de perder o expresso do futuro, acelerar o encerramento das agendas do século XX e começar a trabalhar com afinco nas agendas do século XXI. Lembrando que a agenda de reformas e todas as modernizações aqui mencionadas não bastam para nos levar a um futuro promissor, servem somente para nos colocar novamente em posição de olhar para o futuro com um pouco mais de realismo.

A sociedade não pode assistir à última carga da cavalaria como se zerar as agendas do século XX fosse suficiente. Não é. Precisamos romper a lentidão que sempre dominou o tempo na máquina pública, interessada mais em si mesma do que no país. As reformas do século XX foram batalhas em trincheiras. No século XXI, serão travadas com drones e hackers. Não estamos preparados. Portanto, temos de pensar urgentemente no longo prazo, mas agir em curtíssimo prazo.

Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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