O palácio dos aiatolás caiu
O arco xiita, com Irã, Síria, sul do Iraque e do Líbano, está no chão
O Irã contribuiu para o vocabulário político mundial com a palavra “xiita” como sinônimo de radical. Por exemplo, petista xiita, aquele que não quer acordos políticos, não dialoga com o centrão, não negocia áreas de interesses mútuos. Com isso, detona planos do governo, mas mantém a pureza ideológica. Os xiitas originais ascenderam ao cenário mundial há 47 anos, quando derrubaram o xá Reza Pahlavi — não sozinhos, mas como a força predominante — e tomaram funcionários da embaixada americana como reféns. Tornaram também evidentes a fissura sistêmica que sua versão da religião islâmica, remontando à época imediatamente posterior à morte de Maomé, tem com o ramo majoritário, sunita. O choque fundamentalmente era sobre quem deveria suceder o profeta. Como ramo minoritário, os xiitas sofreram perseguições nos países em que havia mais sunitas, como o Iraque, e até naqueles em que eram maioria, mas ocupavam posições subalternas, como o Líbano.
Ser minoria cria uma poderosa narrativa de resistência. O regime iraniano desenvolveu uma estratégia de longo prazo para estender sua influência entre outras populações xiitas, enviando pregadores carismáticos para insuflar os sentimentos religiosos e sua versão fundamentalista, incluindo o traje negro que deveria envolver as mulheres, deixando apenas o rosto de fora. Xiitas libanesas recebiam 100 dólares para usar a roupa severa e áspera que não fazia parte de sua cultura. Junto com o chador, iam financiando o treinamento militar e doutrinário. Foi um trabalho de paciência que coincidiu com um fundamentalismo ascendente do ramo oposto, o dos sunitas da Irmandade Muçulmana. As duas correntes se confrontaram na Síria, onde a maioria sunita se insurgiu contra o regime de Bashar al-Assad. Curiosamente, Assad vinha de uma tradição modernizadora, ocidentalizada, com matriz de esquerdismo socialista, mas trocou tudo pelo apoio do Irã.
“Tudo isso começou a ruir quando os protegidos palestinos invadiram Israel em outubro de 2023”
Durante alguns anos, o arco xiita foi uma construção vitoriosa, impulsionada pela desastrosa invasão americana para derrubar Saddam Hussein no Iraque. O resultado foi a ascensão dos xiitas iraquianos, reprimidos por Saddam. Sem querer, os americanos propiciaram esta ascensão. O Irã irradiou assim sua influência pelos xiitas do Iraque, os aliados da Síria e os velhos apaniguados do Hezbollah. Também fez uma parceria esperta com os sunitas do Hamas e da Jihad Islâmica nos territórios palestinos.
Tudo isso começou a ruir quando os protegidos palestinos invadiram Israel e praticaram atrocidades no dia 7 de outubro de 2023. O que vemos agora é a culminação da destruição sistemática desse poder xiita e de suas duas palavras de ordem: “Morte aos Estados Unidos” e “Morte a Israel”. Este processo redundou na operação Fúria Épica. Os árabes sunitas da região estão loucos de raiva com os ataques que um Irã enfraquecido desfechou contra os vizinhos, a Síria virou de lado no ano passado e o Hezbollah foi banido pelo governo libanês. O mundo que os aiatolás construíram não existe mais. Quem se aliou com eles, como o governo de Lula, apostou no cavalo errado. Os mulás do Itamaraty, mais uma vez, avaliaram mal. No fundo do mar do sul da Ásia, a fragata iraniana autorizada a visitar o Brasil no ano passado é a prova silenciosa desse desastre político-diplomático.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986





