Donald Trump sofreu uma derrota brutal com a decisão da Suprema Corte sobre a supertarifação no comércio exterior. Foi também uma derrota que só pode acontecer na democracia, com equilíbrio entre poderes e um Judiciário forte. A decisão, segundo a qual, constitucionalmente, as tarifas devem ser aprovadas pelo Congresso em tempo de paz, afeta o coração do programa econômico de Trump, não pelo que as taxas extras geram de ingressos, 350 bilhões de dólares até agora, uma quantia baixa para uma economia de 30 trilhões, mas pela política industrial agressiva — e, acreditam muitos, irreal — que ele implantou para atrair de volta aos Estados Unidos as fábricas que fazem coisas, de carros a semicondutores, transferidas ao exterior pelo vendaval da globalização. Trump quer lucrar pelas duas pontas: uma economia de mercado incentivada pelo alívio fiscal e a desregulamentação combinada a vantagens para os produtores que fabricarem nos EUA. Daí a relevância das tarifas. Por que pagar 40% de taxas para vender um carro nos EUA se ele pode ter tarifa zero se for made in USA? Não é o sonho dos ultraliberais, ao contrário, mas Trump entendeu como o laissez-passer da liberalização ajudou a transformar a China na potência que hoje aspira à hegemonia mundial, enquanto continua a subsidiar exportações a uma espantosa taxa de 4% do PIB.
Enquanto os Estados Unidos deixavam passar, a China se transformou no principal parceiro comercial de nada menos que 120 países. Incluem-se na lista o Brasil, a Alemanha e países estratégicos como a Arábia Saudita e mais uma coleção de latino-americanos, a ponto de o último presidente do Peru, tão fugaz que mal deu para recordar seu nome (José Jerí), ter caído por transações obscuras com a China, não com os imperialistas americanos malvados.
“Trump é passional, narcisista. Xi Jinping, frio como um ofídio por trás da imagem de tiozão benigno”
A disputa pela hegemonia se trava em todas as esferas, mas a mais urgente é a da geração da energia que alimenta os titânicos data centers demandados pela inteligência artificial. Em termos de IA em si, a liderança é americana, mas os chineses têm a vantagem do avanço em fontes limpas de geração de energia — surpresa, surpresa, todos aqueles investimentos visavam ao domínio imperial, não a salvar o planeta. Especialistas falam, metaforicamente, num termo técnico, electron gap, expressão referente à diferença de energia em estágios diferentes dos semicondutores. Será nosso futuro definido pelo electron gap?
Todo mundo já notou a diferença de estilo entre Trump e Xi Jinping. Um, passional, narcisista —e obstinado também em promover os EUA. Outro, controlado, frio como um ofídio por trás da imagem de tiozão benigno — a forma como está dizimando no momento a cúpula militar chinesa exemplifica o estilo matador silencioso. Igualmente obcecado pela construção da hegemonia chinesa. Uma serpente.
Com incentivos de Trump, que fez um acordo para que as big techs forneçam suas próprias fontes de energia, de hidrelétricas a pequenas usinas nucleares, estão sendo construídos no momento 3 000 centros de dados nos Estados Unidos, fora os 4 000 já em operação. A China dará um duro danado para se equiparar. Quem o leitor prefere que saia ganhando a guerra da IA, ou seja, de tudo e de todas as coisas, o dragão ou a serpente?
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984





