É a Síria outro caso fracassado de país que só “funciona” com ditador?
Estado-nação parece, como no Iraque e na Líbia, uma experiência que não deu certo, destinada à fragmentação entre grupos étnicos e religiosos

É impossível não se comover com a alegria dos sírios comemorando a queda de Bashar Al-Assad e as lágrimas dos infelizes que estavam nas prisões do regime. Mas também é difícil não ver como a nova fase, sob a liderança de um grupo islamista, tem desafios na prática impossíveis de ser superados, dificultando a própria subsistência do estado-nação.
Dos principais países que viveram essa fase, modernizante e ao mesmo tempo brutal, o único importante que resta é o Egito. A Líbia é hoje uma espécie de consórcio dividido entre dois grupos rivais, cada um cuidando de seu naco e esperando a hora de avançar sobre o pedaço do outro.
Em segredo, ou talvez nem tão sigilosamente, muitos sentem falta da era de Muamar Kadafi, um monstro que mantinha macas ginecológicas para o exame das mulheres que pretendia estuprar – os homens não precisavam do atestado de saúde genital -, mas que conservou o país unido e, comparado ao caos subsequente à sua derrubada, em ordem.
Saddam Hussein é outro ditador a quem se credita a união do Iraque, obviamente sob um regime de terror. Na prática, hoje o Iraque não controla toda a região do Curdistão, autônoma e impossível, nos termos atuais, de voltar a ser parte integrante do país. Já está dividido. Depois de sua queda, a perseguição mudou de lado: os sunitas, que mandavam em tudo e perseguiam os xiitas, passaram a ser os perseguidos. O país hoje tem uma coleção de milícias xiitas que obedecem o Irã. Não é exatamente um modelo de estado-nação.
QUEBRA-CABEÇAS
A Síria moderna foi fundada pelo mesmo projeto nacionalista e arabista, com simpatias pelo socialismo que se tornaram apenas um retrato na parede. Mesmo antes da queda de Assad, já estava dividida, com algumas áreas sob controle de rebeldes que sobreviveram à guerra civil e seus próprios curdos, também autônomos. A tendência é que se fragmente ainda mais, com uma área drusa e as regiões sunitas sob influência da Turquia.
Medidas conciliatórias, como a anistia a todos os soldados que serviram sob Assad, obviamente obrigados, não têm vida longa diante do grande número de asseclas que o ditador deixou para trás. Os torturados das masmorras perdoarão os que comandaram seus tormentos? Irão os chefes dos serviços secretos, todos saídos da seita ultraminoritária dos alauítas, voltar tranquilamente para casa?
“Vamos oferecer prêmios a qualquer que dê informação sobre altos oficiais do Exército e das forças de segurança envolvidos em crimes de guerra”, avisou o novo líder, Ahmed Al-Sharaa, agora usando seu nome de verdade.
Os Assad, pai e filho, criaram um sistema em que os muçulmanos sunitas tinham cargos no governo, mas a sua “tribo”, a da seita iniciática dos alauítas, dominavam os órgãos de segurança. Por uma questão de sobrevivência, sírios da minoria cristã aderiram ao regime, o que lhes dava garantias comparativas.
ARMAS QUÍMICAS
Tudo isso acabou e a fragmentação tenderá a tensionar um país já estilhaçado. Só para resumir o quebra-cabeças religioso e étnico: os muçulmanos sunitas são uma maioria de 70% a 75% da população, predominantemente árabes, mas também de minorias étnicas como curdos, turcomenos e circassianos. Outra seita minoritária iniciática saída do islamismo, mas com características inteiramente próprias, é a dos drusos. Os cristãos podem ser árabes, armênios e assírios. Alguns ainda falam aramaico, a língua de Jesus Cristo
Idealmente, a Síria seria um país multiétnico e multirreligioso, honrando uma história refletida em Damasco, a mais antiga capital do mundo. A farsa sustentada durante meio século pelos Assad não se sustentou e agora o apelo pela união é feito por fundamentalistas islâmicos, os mesmos que pregam um estado religioso baseado inteiramente nos mandamentos do Corão.
Sob seu controle, terão todas as armas acumuladas por um regime que só sobrevivia pela força, incluindo elementos químicos – daí os bombardeios desfechados por Israel nos depósitos desses armamentos, já antecipando que os jihadistas serão partidários mais entusiásticos ainda da destruição do Estado judeu.
COMBINADO COM OS RUSSOS
Assad pode ser considerado um ditador de sorte. Seus protetores russos possibilitaram que fugisse do país, levando sabe-se lá quantos tesouros que pagarão pelo exílio. Preventivamente, a família já tinha uma coleção de apartamentos de luxo em Moscou. Melhor do que Kadafi, encontrado escondido no deserto e esfaqueado no ânus antes de ser fuzilado. Saddam foi enforcado depois de um julgamento em que realmente não tinha muitas chances.
As experiências que lideraram afundaram junto com eles. Já se especula até que a Síria se torne confederação de quatro subestados.
“O país já está dividido em quatro cantões”, disse ao site Times of Israel o cientista social Wahabi Anan, um druso israelense. “O estado-nação moderno fracassou no Oriente Médio e todas as diferentes comunidades não podem coexistir em um estado nacional”.
Anan acha até que os russos já tinham visto o rumo que as coisas iam tomar e negociaram com os rebeldes, incluindo a saída de Assad e garantias a suas bases. Pode ser conspiracionismo, típico da região. Ou pode ser que a rapidez da queda do ditador e o avanço relâmpago dos rebeldes tenham outras explicações.