Da esquerda à direita, todos batem em Trump. Mas teriam tarifas algo bom?
Tantos protecionistas viraram falsos profetas do livre mercado que dá vontade de olhar nos argumentos em favor das sobretaxas

“Deem-nos uma tarifa protetiva e nós teremos a maior nação da face da Terra”. Quem disse isso não foi Donald Trump, mas Abraham Lincoln, num sinal de que a discussão entre o que é mais vantajoso, mercados abertos ou relativamente fechados, tem uma longa história.
Em defesa do amplo debate, vamos fazer um esforço para romper a barreira gigantesca de críticas a Trump e apontar alguns argumentos a favor das tarifas.
Vale lembrar que tantos dos convertidos à vantagens do livre mercado estão muitos protecionistas praticantes. Da União Europeia ao Brasil, o protecionismo é habitual, quando não histórico. A Índia é provavelmente o país mais protegido do mundo, com tarifas que chegam a 60% para automóveis e 150% para bebidas alcoólicas. A China criou um sistema próprio, fabulosamente bem sucedido: quem quisesse acesso a seu mercado, tinha que produzir lá – e dar sociedade ao governo. E pagar tarifas
O caráter caprichoso e instável das “tarifas de Trump” aumentou o volume das críticas. Imprevisibilidade é tudo o que não se deveria esperar da maior economia do mundo. Mas é a realidade atual.
Alguns dos argumentos a favor das tarifas:
. “A nova abordagem rejeita o globalismo das últimas décadas e, em lugar dela, prioriza a produção local – e uma prosperidade disseminada que abrange a todas as as camadas demográficas da América”, defendeu Steve Cortes, comentarista conservador e ex-integrante do primeiro governo Trump.
“Em lugar da concentração de riquezas numa classe dirigente mimada e mal-acostumada, podemos desencadear uma era de ouro de sucesso econômico amplamente disseminado e poder político difuso”.
Alguém imaginaria ver a direita criticando a concentração de riquezas? É uma das surpresas do novo populismo.
. “Acabou a desastrosa era do pós-Guerra Fria, na qual Washington negligentemente sacrificou a indústria americana para apaziguar a China comunista e outros parceiros comerciais predatórios”, escreveu no New York Post o colunista Michael Lind.
Quem achava que a nova ordem mundial favorecia em tudo os Estados Unidos estava, portanto, completamente errado. Existe uma certa ironia nessa ideia, mas o fato é que, como disse Trump, dezenove mil fábricas fecharam nos Estados Unidos e foram produzir no exterior – significando, basicamente, China e México, com mão de obra mais barata e subsídios.
Pode funcionar o sistema de implantar tarifas para trazer as manufaturas de volta, numa espécie de volta ao passado?
“Claro que pode”, defende Lind. “Antes da II Guerra Mundial, os Estados Unidos usaram as tarifas altas para impulsionar as indústrias americanas e se tornar a potência manufatureira do mundo”.
“Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Alemanha e China, todos usaram tarifas e medidas como subsídios ou regulamentações para construir seu próprio setor manufatureiro e expandir sua participação no mercado global”.
Mas os preços não vão subir para os consumidores americanos? “Vale a pena ter preços ligeiramente mais altos para garantir que o sistema de saúde americano não dependa da China numa futura pandemia e as Forças Armadas não dependam das cadeias de abastecimento chinesas”.
. E a inflação, a imagem de recurso ultrapassado nas economias modernas e a recessão de que todo mundo fala? “Não vai haver recessão na América”, garantiu inúmeras vezes o secretário do Comércio, Howard Lutnick. “As tarifas globais vão cair porque o presidente Trump disse “Querem cobrar 100% de nós? Então vamos cobrar 100% de vocês”.”
“Nossa economia vai crescer de um modo como nunca cresceu antes”. Esse crescimento, garante ele, vai fazer com que os preços de produtos agrícolas e outros alimentos caiam.
Lutnick anda com o prestígio em baixa, criticado inclusive por fontes – anônimas, evidentemente – do próprio governo, mas virou o porta-voz principal das tarifas, enquanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, parece pisar em ovos.
. Muitas dos argumentos em favor das tarifas parecem antiquados, chegando a remeter, da ótica brasileira, ao forte protecionismo da época do regime militar.Mas as tarifas têm indubitavelmente um apelo populista. Um dos mais protecionistas presidentes americanos, William McKinley, defendia que “sob o livre comércio, o intermediário é o senhor e o produtor é o escravo”. Também achava que “proteção é a lei da natureza, a lei da autopreservação”.
E se os consumidores terminarem com produtos piores e mais caros, por falta de concorrência, como já vimos muito bem acontecer?
É um dos incontáveis desafios que Trump criou para si mesmo. Entre eles, convencer a opinião pública: segundo uma pesquisa de ontem, 58% dos americanos acham que as tarifas prejudicam a economia e apenas 28% acreditam no contrário.
Detalhe final: Lincoln defendia as tarifas inclusive pela facilidade de arrecadação e por incidir sobre produtos que os “ricos e luxuosos” consomem, enquanto a taxação sobre a renda criaria arrecadadores que se espalhariam como “nuvens de gafanhotos egípcios”.
Em 1913, foi criado o imposto de renda.