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Realismo trágico

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Por Maria Carolina Maia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 ago 2010, 20h21 • Atualizado em 31 jul 2020, 14h30
  • Quando recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1982, o colombiano Gabriel García Márquez não por acaso abriu seu discurso resumindo alguns “mistérios inimagináveis” que, desde o tempo das descobertas, tornavam a América a terra das hipérboles. Sua obra máxima, Cem Anos de Solidão (Record, 394 pág., trad. Eliane Zagury) é a tentativa bem sucedida de contar histórias igualmente fantásticas, mas com o detalhismo rigoroso que não era característico daqueles cronistas de viagem.

    Tudo se passa em Macondo, simpática cidade às margens de rio com seixos ao fundo, perdida em algum ponto impreciso da América hispânica, onde Úrsula Buendía e seu marido, o primeiro José Arcádio, se estabelecem como prósperos cidadãos.

    A partir daí, e seguindo linha cronológica que se extinguirá cem anos mais tarde, a narrativa se perde no delírio de episódios que constituem a história dos Buendía – episódios que vão do truque barato de magnetismo à ascensão aos céus, passando por fantasmas magoados, chuvas que duram meses, tesouros, amnésias enlouquecedoras, epidemias de insônia– que contornam os absurdos mais comuns, o de Lewis Carroll (1832-1898) e o de Franz Kafka (1883-1924), sem negar, contudo, a herança destes, e principalmente a deste último.

    Pois Cem Anos de Solidão é poderosa reflexão sobre a claustrofobia da História. García Márquez produz esse efeito situando os cem anos entre dois pólos da estirpe dos Buendía: a matriarca Úrsula e seu filho, o coronel Aureliano; uma, a personificação do bom senso e da industriosidade; o outro, do idealismo e da melancolia. Ambos assistem, com diferentes graus de envolvimento, ao ciclo de amores insolúveis, guerras de caudilhos, buscas alquímicas, surtos de fanatismo religioso, fugas magníficas em que se envolvem, geração após geração, todos os Buendía, todos presos ao seu atávico destino de repetição (presente também nos nomes das personagens masculinas).

    Desta forma, Cem Anos é peça-chave de um realismo trágico –descendendo do teatro de Sófocles–, e não apenas do realismo mágico, expressão já atribuída à obra da italiana Anna Maria Ortese quando da publicação de Cem anos em 1967.

    A história se acelera com a morte de Aureliano e Úrsula, apontando para um fim melancólico que, no entanto, se revela apoteótico. Depois de viver cem anos em Macondo, o leitor ainda terá nas últimas páginas do livro um presente raro: a solidão antecipada de estar prestes a se despedir de uma obra-prima.

    Luis G. Nakajo

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