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Freud, terrorismo e adrenalina

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Por Javier Arancibia Contreras
3 nov 2012, 08h36 • Atualizado em 13 ago 2018, 17h52
  • Foi o psicanalista Sigmund Freud quem cunhou o termo Instinto de Morte, em 1920, pouco após a Primeira Guerra Mundial. Vivendo tempos violentos, Freud teorizou sobre o impulso de agressão do homem como algo inerente a ele. O psicanalista falava não apenas do desejo de matar e agredir o outro, mas também da vontade de fazer mal a si próprio. É a partir dessa teoria que o americano Jed Rubenfeld constrói o cerne de Instinto de Morte (tradução de George Schlesinger, Paralela, 395 páginas, 36,90 reais impresso, 26 reais e-book), que toma emprestado o termo freudiano para o título.

    Não pense o leitor, porém, que esse prelúdio será analisado a sorvos de chá em longas sessões de terapia na Viena do início do século XX. Freud é um personagem do livro, assim como aconteceu em A Interpretação do Assassinato, livro predecessor do autor, mas não leva a história para o divã. O romance é adrenalina do começo ao fim, com direito a ataque terrorista, explosões, guerra, perseguições, sequestros, envenenamentos, mortes violentas, teorias da conspiração, facadas, tiroteios e corrupção nos mais altos escalões governamentais, entre outros recursos narrativos utilizados por escritores de thrillers, livros que parecem escritos para o cinema.

    o_instinto_de_morte_capaOs personagens são os mais clichês possíveis. Está lá o policial honesto, perspicaz, inteligente, pobre e incorruptível, quase um Capitão Nascimento (“‘Há dois tipos de tiras no departamento de polícia de Nova York: os que querem se dar bem e os que são estúpidos demais para perceber que todos os outros só estão querendo se dar bem. De que tipo você é?’, perguntou. ‘Eu sou bem estúpido’, Littlemore replicou e fechou a porta atrás de si”). Está lá também o médico que é veterano de guerra e durão, protótipo do anti-herói, que quer esconder o fato de ser um bom homem, mas não hesita em enfiar uma barra de aço goela abaixo de um soldado alemão. E a heroína doce e frágil, que é perturbada por fantasmas do passado e ainda esconde um segredo, além de um menino traumatizado que não fala, esconde um outro segredo e é analisado por Freud.

    Aliás, o psicanalista não é o único personagem real do romance. Há uma série de outros, desde a cientista francesa Marie Curie (vencedora de dois Nobel de Química e Física) a políticos, policiais e empresários americanos da época. O pano de fundo – bem construído a partir de uma grande pesquisa – também é histórico. Tudo começa com aquele que hoje é considerado primeiro ataque terrorista em solo americano, em 16 de setembro de 1920, quando uma bomba explodiu ao meio-dia em plena Wall Street, centro financeiro de Nova York, deixando 36 mortos e mais de 300 feridos.

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    Rubenfeld se apropria desse fato real para ficcionalizar ou mesmo criticar a política interna dos Estados Unidos de buscar culpados que justifiquem interesses macroeconômicos escusos. Na época, houve uma conspiração a favor da invasão ao México, onde a indústria petrolífera americana estava a perigo com as ameaças de nacionalizar tudo. “Nós somos a droga dos Estados Unidos da América. O que devemos fazer depois que explodem uma bomba aqui? Essa maldita situação do México está esquentando. Eles são vorazes demais, esses mexicanos. Por que querem pegar todo o nosso petróleo?”, diz a certa altura um senador. Qualquer semelhança com os atentados de 11 de Setembro e a invasão ao Iraque não parece mera coincidência.

    A partir desse fato, o policial Jimmy Littlemore, o médico Stratham Younger, a cientista Colette Rousseau e o menino Luc vão de Nova York a Washington, de Viena a Praga, em busca de respostas tanto para o motivo central – o atentado terrorista – quanto para o motivo psicanalítico da violência no mundo (“A guerra me ensinou uma coisa que eu devia ter entendido há séculos: nós temos um instinto além do princípio do prazer. Outro instinto, tão fundamental quanto a fome, tão irresistível quanto o amor”, diz Freud no romance).

    O leitor preocupado com a quantidade de informações históricas, técnicas ou mesmo narrativas comuns às histórias policiais recheadas de personagens, pistas e elementos que só no fim se juntam como em um quebra-cabeça não precisa se preocupar. O autor faz questão de explicar passo a passo as resoluções através de seus personagens e reforçá-las no final do livro para que nenhuma ponta fique solta, mesmo que algumas soluções sejam frágeis e até absurdas.

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    No fundo, Instinto de Morte se propõe a contar uma passagem não tão lembrada da história recente americana e, ao mesmo tempo, a entreter como um bom romance policial noir, tradição comum a este país. E consegue.

    Javier Arancibia Contreras

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