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‘1Q84’: desfecho da trilogia pode decepcionar fãs

Série tem premissa interessante, mas a sensação que fica, quando se chega ao fim, é a de que suas 1.280 páginas não levam a lugar algum

Por Meire Kusumoto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 fev 2014, 08h39 • Atualizado em 15 jan 2018, 18h37
  • Haruki Murakami

    Na trilogia 1Q84, o escritor japonês Haruki Murakami, constantemente apontado como um dos favoritos ao Prêmio Nobel de Literatura, faz uma viagem por um mundo muito parecido com o “normal”, feito de pessoas, carros, casas e fenômenos da natureza. Esses elementos mundanos, no entanto, dividem espaço com duas luas, homenzinhos que formam um grupo chamado Povo Pequenino e um grupo religioso que aparentemente tem como uma de suas tradições o estupro de meninas que não menstruam. A premissa é interessante e consegue fazer com que leitores avancem por suas 1.280 páginas em busca de respostas. Uma pena que a sensação que fica, quando se chega ao fim, é a de que esse calhamaço não leva a lugar algum.

    O último volume da trilogia, 1Q84 – Livro 3 (tradução de Lica Hashimoto, Alfaguara, 472 páginas, 49,90 reais), lançado junto com o box que traz as três obras, pode ser definido com uma palavra: decepção. A saga dos protagonistas, Tengo e Aomame, acompanhados pelo leitor desde o primeiro volume, chega a seu ponto final da forma mais inócua possível, sem um confronto satisfatório e sem muitas das revelações tão aguardadas.

    Capa 1Q84 Volume 3.inddNo primeiro livro, Tengo, um professor de matemática de um curso preparatório para o vestibular de Tóquio, é convidado a reescrever o romance Crisálida de Ar, de autoria de Fukaeri, uma menina de apenas 17 anos. O livro da garota, fantasioso, tem enredo intrigante e potencial para se tornar um best-seller, mas sua escrita é pobre e, muitas vezes, incompreensível. Tengo, aspirante a escritor, aceita o desafio e passa a retrabalhar o romance, enfrentando tudo o que a reescrita lhe impõe.

    Aomame, instrutora de um clube esportivo, esconde a sua segunda ocupação, a de assassina justiceira, constantemente chamada a matar homens que violentam ou se aproveitam de mulheres. Desde o início, Aomame parece ter uma forte ligação com Tengo, estabelecida quando os dois estudavam juntos, ainda crianças, e ela segurou sua mão após ele ter defendido a menina de um ataque de bullying. Aomame deixa a escola pouco depois e eles perdem o contato por mais de 20 anos. Com o avançar dos capítulos de 1Q84, fica claro que os dois estão fadados a se reencontrar.

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    Habilmente, Murakami vai revelando as estranhezas do mundo que criou, muito parecido com o retratado por Fukaeri em Crisálida de Ar, que conta com duas luas no céu e com o chamado Povo Pequenino. Mas, assim como o romance da garota, o de Murakami bem poderia ser reescrito, removendo o excesso de repetições, tão queridas do autor japonês. As lembranças de Tengo e Aomame são mencionadas diversas vezes, assim como os acontecimentos dos livros anteriores da trilogia. O escritor é tão afeiçoado a esse modo de escrita que chega até a colocar personagens repetindo uns aos outros durante os diálogos, em uma tentativa de sugerir torpor ou incompreensão, mas conquistando apenas a irritação do leitor.

    Aomame manteve-se em silêncio, aguardando atentamente a continuação da conversa.

    – Você pode permanecer aí até o final do ano. Mas saiba que esse é o limite.

    – Quer dizer que, no começo do ano, vou ser transferida para outro lugar, é isso?

    – Saiba que estamos fazendo o máximo para respeitar o seu desejo.

    – Entendi. – disse Aomame. – Vou ficar aqui até o final do ano e depois vou para outro lugar.

    Justiça seja feita, Murakami sabe prender o leitor e sua trilogia é misteriosa o suficiente para fazer com que as pessoas virem avidamente as páginas, com enredo original e narrativa impactante. Por isso, é tão frustrante chegar a seu ponto final e não encontrar nada além de um grande vazio, que não instiga o leitor a procurar seus próprios questionamentos e respostas, apenas transmite a sensação de que algo de essencial deixou de ser contado.

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