Quem pariu Pablo Marçal que o embale
Em artigo enviado à coluna, o cientista político Rodrigo Vicente Silva explica porque a eleição em SP não será sobre a cidade

Ainda no mês de janeiro, escrevi um artigo para esta coluna onde discutia a possibilidade de as eleições municipais se tornarem muito mais sobre Lula e Bolsonaro do que aquilo que de fato elas tendem a ser, ou seja, sobre problemas locais. Creio que quase acertei. Quase porque não previ que o bolsonarismo daria luz a um filho rebelde como Pablo Marçal.
Antes de olhar os números e o cenário das pesquisas, vale lembrar que Marçal tem certidão de nascimento com filiação devidamente registrada. Sabe aquela frase de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Ficou cafona, claro, e lugar comum aos montes, mas se encaixa perfeitamente para os Bolsonaros que condecoraram, bajularam, se aproveitaram e agora jogam fora – ou pior, no colo do paulistano, o coach Pablo Marçal. Ou seja, se o candidato do PRTB está aí dando dor de cabeça a todas as campanhas é porque ele aprendeu com a família Bolsonaro que era possível por meio de grosserias e incivilidades se mostrar como alguém forte contra tudo e contra todos. Sabemos que Bolsonaro fez escola, mas será que aprendemos com o passado? Tudo caminha para mostrar que não.
Porque não faz muito tempo, foi ali na eleição de 2018, quando ouvíamos que Bolsonaro não passaria de um momento, que ninguém daria bola para um louco. O PT, contudo, parece não ter aprendido a lição, dado que já é possível ouvir fontes da campanha de Boulos que seria muito mais fácil derrotar alguém que não é levado a sério, que não tem lastro político… Lembram dessas frases? Se a tragédia se dará em decorrência da farsa de Bolsonaro, talvez tenhamos de pagar para ver.
Mas há um teto aí, porque tanto Marçal, quanto Nunes tem pela frente um problema a se resolver: a grande rejeição de Bolsonaro em São Paulo, que na última pesquisa Datafolha mostrou que 65% dizem não votar de jeito nenhum em um candidato apoiado pelo ex-presidente. A maioria dos que votam em Bolsonaro tendem a ir para Marçal, o exemplar mais fiel do bolsonarismo, mas, até aqui, o filho renegado do clã, cuja criação pode se tornar maior que o criador. Nesse bolo todo Nunes fica sem saber para onde ir.
Boulos também tem um problema pela frente. Se por um lado conta com aquele um terço clássico dos paulistanos para a esquerda e centro-esquerda, que, à exceção de 2016, quando Dória liquidou a fatura do primeiro turno, tem garantido lugar para esse grupo político no segundo turno, sabe que furar essa bolha será tarefa árdua.
O que se sabe é que a eleição em São Paulo está longe de ser facilmente resolvida. Até porque pesquisa é retrato do momento e tudo pode mudar na capital. Marçal pode desidratar, Datena pode desistir, Nunes pode se tornar conhecido e crescer com o apoio de Bolsonaro. Boulos pode, de vez, colar em Lula e chegar bem perto da vitória, mas sabe que tem um teto bem complicado. Resta saber quem vai furar esse limite. Parece que com propostas não será. Já vimos esse filme, infelizmente. Dessa vez, ele vem como um revival de terror.
* Rodrigo Vicente Silva é mestre e doutorando em Ciência Política (UFPR-PR). Cursou História (PUC-PR) e Jornalismo (Cásper Líbero). É editor-adjunto da Revista de Sociologia e Política. Está vinculado ao grupo de pesquisa Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem). Contribui semanalmente com a coluna