Os grandes desafios políticos que esperam Lula em 2024
Em um país ainda bastante dividido ideologicamente, presidente terá que contornar um Congresso hostil em meio à prioritária (e difícil) eleição municipal

Diz o folclore político que todo governante ganha do eleitor – e eventualmente até dos adversários – uma espécie de trégua no primeiro ano de mandato, ainda mais se chegar ao cargo em um momento difícil. Foi o que ocorreu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que começou a sua gestão sob os escombros do 8 de Janeiro, o que lhe garantiu certa união política e institucional para encaminhar os seus assuntos mais urgentes.
Mas 2024 pode ser um tanto diferente. Primeiro, porque é ano de eleições municipais. E em ano de disputa nas urnas, a solidariedade política tende a diminuir. Lula já deixou claro, mais de uma vez, que a corrida pelas prefeituras é prioritária, não só para o PT, mas para o seu governo: conquistar o maior número de prefeituras em cidades importantes pode ajudar a pavimentar o caminho para um bom desempenho na renovação do Congresso em 2026 e em uma eventual reeleição ao Planalto.
E isso não será fácil. Lula aposta no seu carisma e nas realizações de seu governo para alavancar candidatos aliados, como ocorreu em 2004, quando, logo após chegar pela primeira vez à Presidência, o PT conquistou nada menos que nove das 27 capitais na eleição municipal.
A estratégia de usar programas de bastante impacto eleitoral como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) esbarra na dificuldade com que o governo vem atuando para manter as contas públicas equilibradas. Lula e o PT já disseram mais de uma vez que podem deixar de lado parte dos compromissos fiscais para não colocar em risco os gastos públicos planejados para o ano que vem. O próprio Fernando Haddad, ministro da Fazenda, já foi avisado disso, tanto por Lula quanto por dirigentes do seu partido. Novas trombadas entre o ministro da área econômica e os cardeais do petismo na hora da eleição não serão nenhuma surpresa.

Outro ponto complicado para Lula será costurar as alianças nas principais cidades enquanto tem que liderar um governo que tem nada menos que dez legendas na Esplanada e uma base completamente instável no Congresso. As cotoveladas entre os partidos nos grandes municípios tende a aumentar e, claro, azedar as relações tanto no governo quanto no Parlamento – e estas não foram um mar de rosas no primeiro ano de mandato.
Atritos com o Congresso
Pior: Lula deve iniciar 2024 já trocando caneladas com o Parlamento. A começar da Medida Provisória nº 1.202, apresentada por Haddad no crepúsculo de 2023 e que foi interpretada como quase uma afronta ao Legislativo. Isso porque entre as medidas propostas para manter o Orçamento equilibrado para 2024 está a reoneração da folha de pagamento para dezessete setores da economia, o que na prática invalida lei promulgada pelo próprio Congresso que prorrogou esse benefício.
O ano nem tinha acabado e alguns parlamentares já anunciavam essa como a primeira encrenca para Lula em 2024, com sério risco de derrota para o governo, algo que o petista já experimentou nas questões do marco temporal e da própria desoneração, quando os seus vetos foram derrubados por ampla maioria por deputados e senadores.

E essa não será a única encrenca. O governo já tem na agenda outros projetos que certamente criarão confusão, como o PL das Fake News (que regula a atuação das redes sociais) e a segunda fase da reforma tributária, que prevê maior taxação de ricos e menor tributação de quem ganha menos (com o aumento da faixa de isenção) – essa foi uma das principais promessas de Lula na campanha, verbalizada pelo mantra “colocar o pobre no Orçamento e o rico no Imposto de Renda”.
Como se não bastasse tudo isso, é quase certo que em paralelo às eleições municipais, o Congresso acabe mergulhando nas articulações de bastidores para as sucessões nos comandos das duas Casas, que será em fevereiro de 2025. Já há grupos se movimentando para tomar os lugares de Arthur Lira (PP-AL) na Câmara e de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) no Senado – a disputa deve criar ruídos na base governista no Parlamento.
País dividido
Por fim, Lula tem um outro desafio gigantesco, que tende a se agravar com as disputas eleitorais: o fato de que ele não conseguiu até agora vencer a resistência de parcela expressiva da população a ele e ao seu governo.
Pesquisas de diferentes institutos mostraram que ao longo de 2023 o petista não conseguiu avançar para o eleitorado que optou por Jair Bolsonaro em 2022, em uma eleição muito difícil (a vitória veio com menos de dois pontos percentuais de diferença).

Levantamento do Datafolha de dezembro, por exemplo, mostra que 38% do eleitorado considera ótimo ou bom o seu governo, enquanto 30% o avaliam como ruim ou péssimo e 30% dizem que ele é regular. Pior: 57% acreditam que ele fez menos pelo Brasil do que esperavam. Pesquisa também de dezembro da Quaest mostra que 54% aprovam o seu governo e 43% o desaprovam.
Apesar das campanhas publicitárias que o governo lançou na virada do ano apelando por um Brasil unido e sem polarização política, isso ainda não ocorreu na prática – e é improvável que ocorra em um ano eleitoral. A melhor maneira de Lula conseguir fazer isso é melhorar a economia do país. Ganhos no bolso e no padrão de vida tendem a diminuir mais a resistência do eleitor do que discursos ou propagandas na TV.
Com um Congresso hostil, uma população dividida, um cenário econômico sempre incerto e uma eleição acirrada pela frente, Lula não terá vida fácil em 2024.