Mpox: por que ela voltou?
Vírus não desaparecem quando saem do noticiário. Especialista explica a dimensão do problema
A mpox, conhecida até poucos anos atrás como monkeypox, voltou ao noticiário internacional — e isso não é coincidência. Desde o surto global iniciado em 2022, a doença nunca deixou de circular, embora tenha saído do centro das atenções.
Agora, com a confirmação de um caso em Porto Alegre após dois em São Paulo, o tema retorna à agenda de saúde pública. Segundo as autoridades locais, a infecção ocorreu por contato direto com uma pessoa infectada fora do Rio Grande do Sul, um padrão compatível com o que já se conhece sobre a transmissão humana da doença. O episódio reforça, mais uma vez, que vigilância em saúde pública não é algo episódico, mas um esforço contínuo.
O cenário internacional ajuda a entender esse movimento. Dados atualizados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, a agência de saúde pública dos Estados Unidos) mostram que a mpox segue presente em diferentes regiões do mundo, com circulação dos dois principais grupos do vírus (clados I e II), além de casos associados a viagens e episódios de transmissão local em alguns países.
Desde 2022, mais de uma centena de países já notificaram casos, inclusive locais onde a doença nunca havia sido registrada antes, como França e Estados Unidos. Isso muda definitivamente o lugar do problema na agenda de saúde pública: ele deixa de ser exceção e passa a ser um risco que precisa ser monitorado de forma permanente.
Quando a mpox “volta” ao noticiário, não é porque falhamos necessariamente em algum ponto específico. É porque vivemos em um mundo de alta mobilidade, com circulação constante de pessoas e vírus, e com doenças infecciosas que se adaptam a novos contextos. O erro seria tratar cada reaparecimento como surpresa — ou, pior, como algo irrelevante.
Do que estamos falando?
A mpox é causada pelo Monkeypox virus (MPXV), um vírus da família dos ortopoxvírus — a mesma da varíola — e é classificada como uma infecção zoonótica, conforme descreve a Organização Mundial da Saúde.
Embora o nome venha de uma identificação inicial em macacos de laboratório, o principal reservatório natural do vírus não são os primatas, mas sim roedores africanos, como esquilos, ratos e outros pequenos mamíferos silvestres. Macacos e outros primatas, assim como os humanos, são considerados hospedeiros acidentais.
A transmissão do animal para o ser humano tende a ocorrer sobretudo em áreas florestais, por meio de mordidas, arranhões ou contato com carne e fluidos de animais infectados. Já a transmissão entre pessoas acontece principalmente por contato direto com lesões de pele, fluidos corporais, crostas ou objetos contaminados, como descreve o Ministério da Saúde.
Isso ajuda a explicar por que a proximidade física prolongada — inclusive durante o contato sexual, sobretudo quando há múltiplos parceiros — aumenta a exposição e se torna um fator central na disseminação da doença.
Após um período de incubação que pode variar de alguns dias até cerca de três semanas, a doença costuma se manifestar com febre, dor de cabeça, dores musculares, mal-estar, aumento dos gânglios linfáticos e, principalmente, lesões na pele, que evoluem em estágios e podem persistir por semanas⁵. Em geral, a maioria dos casos evolui bem, mas crianças, gestantes e pessoas imunossuprimidas podem apresentar maior risco de complicações.
O registro recente no Brasil reforça um ponto central: detectar cedo faz diferença. E isso depende de capacidade diagnóstica, articulação entre serviços de saúde e comunicação rápida com as autoridades sanitárias. Iniciativas voltadas ao fortalecimento da vigilância laboratorial em escala global, como a Coalizão Abbott Pandemic, buscam ampliar o acesso a testes e apoiar sistemas de saúde na identificação de ameaças infecciosas emergentes.
A confirmação de casos por laboratórios integrados a esse tipo de rede mostra como infraestrutura diagnóstica e resposta rápida são peças centrais da proteção em saúde pública.
Outro tema central nessa discussão é a duração da proteção conferida pelas vacinas que já existem contra a mpox. Atualmente, a principal vacina utilizada é a de terceira geração, conhecida como MVA-BN (ou Jynneos), desenvolvida a partir da tecnologia de vírus não replicante e também empregada na estratégia de prevenção contra a varíola.
Um estudo publicado no Journal of Infectious Diseases mostrou que os níveis de anticorpos neutralizantes contra o vírus da mpox tendem a diminuir ao longo do tempo, tanto após a infecção natural quanto após a vacinação com a MVA-BN/Jynneos. Em parte dos indivíduos avaliados, mais de dois anos depois da infecção ou da vacinação, esses anticorpos já estavam em níveis muito baixos ou até indetectáveis.
Esse achado não significa que a vacina não funcione nem que a proteção desapareça por completo — a evidência disponível indica que ela continua importante, sobretudo para reduzir o risco de formas graves da doença. O estudo, no entanto, reforça a necessidade de políticas de imunização baseadas em evidência, com definição clara de grupos prioritários, acompanhamento ao longo do tempo e ajustes nas estratégias conforme novos dados científicos se acumulam.
Do ponto de vista do cuidado clínico, o manejo da mpox é, na maioria das vezes, de suporte: controle da dor, cuidado com as lesões de pele, prevenção de infecções secundárias e acompanhamento dos sintomas. Em situações específicas e em pacientes de maior risco, antivirais podem ser considerados conforme protocolos e diretrizes internacionais do CDC.
A lição é evidente: vigilância em saúde precisa ser permanente. Isso envolve poder público, serviços de saúde, laboratórios, pesquisadores e, também, iniciativas de cooperação internacional. Não para criar alarme, mas para garantir que casos sejam identificados, acompanhados e controlados antes que ganhem outra dimensão.
“Por que ela voltou?” Porque vírus não desaparecem quando saem do noticiário. E porque saúde pública não pode funcionar em modo intermitente — apenas quando a crise já está instalada.
*Alberto Chebabo é infectologista, professor da UFRJ e médico da Dasa e do laboratório Sérgio Franco, no Rio de Janeiro





