O Estado é impessoal, mas os presidentes do Brasil e da Argentina se detestam e resolveram transformar as relações entre os dois países em questão pessoal. Presos na armadilha do ressentimento, Lula e Javier Milei se hostilizam todo o tempo. A tensão aumentou neste começo de 2026 como efeito colateral da ofensiva de Donald Trump para ampliar a influência dos Estados Unidos no continente e, em particular, bloquear o avanço da China na América do Sul.
Um deboche em rede social foi recebido com mau humor pelo rival e retrucado em decisão presidencial que degrada a agenda diplomática comum dos principais sócios do Mercosul. Aconteceu depois do réveillon, na comoção com a invasão da Venezuela e o bombardeio de cinco cidades, para sequestro do ditador Nicolás Maduro.
Milei resolveu zombar de Lula divulgando um vídeo da reunião do Mercosul, antes do Natal, quando discursou apoiando a “pressão” de Trump contra a ditadura “atroz e desumana do narcoterrorista” venezuelano. O filmete termina na fotografia de um abraço efusivo entre sorridentes Lula e Maduro, com o presidente argentino gritando “Viva la libertad, carajo”.
Lula reagiu duramente, à margem do manual do pragmatismo. Converteu um problema pessoal numa questão de Estado. Mandou o Itamaraty abandonar a representação da Argentina na Venezuela, agora assumida pela Itália. No gesto simbólico deixou implícita a possibilidade de escalada nas represálias.
Sequelas desse embate entre ególatras serão visíveis na reunião do fim de semana para assinatura do tratado Mercosul-União Europeia. Negociado durante um quarto de século, o acordo une dois blocos econômicos com 718 milhões em população e 22,4 trilhões de dólares (120 trilhões de reais) em riqueza, medida pelo produto interno bruto.
Em tese, sobram motivos para festejar um acordo entre países da Europa e da América do Sul numa etapa em que os Estados Unidos tentam reeditar os fundamentos da hegemonia colonial no Novo Mundo. Porém, o clima glacial entre Brasília e Buenos Aires embaçou o brinde com os europeus no verão de Assunção.
“Ególatras, Lula e Milei convertem relação Brasil-Argentina em questão pessoal”
Lula e Milei há tempos se apresentam numa coreografia de ressentimentos. Começou quando Lula, em 2023, decidiu jogar com o peso do Brasil numa intervenção política na Argentina. Atravessou a fronteira sul, atropelando as regras de prudência, para fazer aquilo que, certamente, condenaria com veemência se um líder estrangeiro fizesse no seu país: tomou partido na guerra eleitoral dos argentinos. Mobilizou seu governo a favor do peronismo, o conglomerado político mais complexo da história, na bem-humorada definição do falecido diplomata Marcos Azambuja.
A interferência brasileira na eleição presidencial argentina incluiu uma parceria entre Lula e o então presidente Alberto Fernández para um inusitado “plano de governo binacional”, como registrou em livro o ex-embaixador argentino Daniel Scioli. Brasília apelou a Pequim e aos governos do clube do Brics por socorro financeiro pré-eleitoral ao combalido governo peronista. Incitou a Corporação Andina de Fomento, onde o Brasil tem voz e voto, e o Banco do Brasil a uma bilionária ajuda ao governo argentino. E enviou assessores de campanhas petistas a Buenos Aires para “ajudar na comunicação” do candidato peronista, Sergio Massa, ministro da Economia.
Lula jogou até para melar a aliança entre Milei e o ex-presidente Mauricio Macri, líder da centro-direita argentina. Em Paris, numa reunião com banqueiros europeus, insinuou corrupção de Macri: “À Argentina, da forma mais irresponsável, o FMI emprestou 44 bilhões de dólares a um senhor (Macri) que era o presidente, e não se sabe o que (ele) fez com o dinheiro”, disse. Não indicou uma única prova, mas a acusação repercutiu na campanha argentina. Milei rebateu com uma frase, que costuma repetir: “Lula é comunista e um grande corrupto, por isso esteve preso”.
Ambos parecem ter decidido não esquecer ressentimentos, numa espécie de autoenvenenamento psicológico. Trabalham para criar ainda neste semestre dois novos fóruns políticos regionais, nos quais possam se destacar como referência no apoio ou no contraponto às propostas neoimperialistas de Donald Trump para a América do Sul.
É do jogo, mas, no fundo, não importa muito o que Lula e Milei pensem ou falem um do outro. Como ensinou o embaixador Azambuja, o Brasil é, e continuará sendo, o único lugar que importa onde a Argentina é importante. E a recíproca é absolutamente verdadeira.
Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978
A primeira declaração de Lula sobre Bolsonaro após ex-presidente ir para a Papuda
Mais da metade dos americanos acredita que começo de novo governo Trump foi fracasso, diz pesquisa
Lula recebe Moraes no Planalto em meio a suspeitas de vazamentos contra ministros do STF
A reação de auditores da Receita ao novo inquérito de Moraes sobre violação do sigilo de ministros
A fúria do governo Milei com o encontro de Lula e líderes europeus no Rio de Janeiro







