Faroeste político
Orçamento secreto tem até ameaça de morte em disputa de propina: ‘Bala na cara!’
Dois deputados federais e um suplente condenados por unanimidade a mais de cinco anos de cadeia por corrupção no repasse de verbas do Orçamento a prefeituras, via emendas parlamentares. E, também, uma deputada algemada à tornozeleira eletrônica, acusada de ladroar aposentados e pensionistas do INSS. Assim terminou o verão na Câmara dos Deputados.
Vai ter mais nas próximas estações, à margem do calendário eleitoral. Há “dezenas” de políticos, nas palavras do juiz Flávio Dino, na fila de inquéritos e ações penais para julgamento no Supremo Tribunal Federal, sob suspeita de desvio bilionário de verbas públicas.
São 83 deputados e senadores (14% do Congresso) sob suspeita nesse caso, que é conhecido como orçamento secreto. Mapeiam-se estranhas transações na rota e intermediações de mais de 10 bilhões de reais, equivalentes a 2 bilhões de dólares, extraídos do Orçamento federal nos últimos cinco anos.
A aposta na impunidade talvez explique a criação de um “mercado” nacional de emendas orçamentárias, onde alguns deputados e senadores se distinguem como “atacadistas” ou “varejistas”, conforme a capacidade de influenciar movimentações de verbas públicas.
Num exemplo, investiga-se um parlamentar do topo da pirâmide do Congresso que teria distribuído, por meios nada transparentes, cerca de 600 milhões de reais a prefeitos, metade em Alagoas. Não é pouco dinheiro: empresas privadas com faturamento anual dessa dimensão reluzem entre as maiores do país.
Documentos coletados pela polícia sugerem a improvisação de estruturas regionais para cobrança de “comissão” ou “pedágio” nos repasses de verbas federais. Já não é incomum a disputa entre grupos de arrecadação no mesmo estado, até com ameaças de morte. É o que mostra o processo judicial que levou à condenação dos deputados federais.
No verão de cinco anos atrás, a prefeitura de São José de Ribamar, a 30 quilômetros de São Luís, recebeu 6,6 milhões de reais em emendas parlamentares destinadas ao sistema local de saúde. Ribamar mantém padrões sanitários precários e elevada mortalidade infantil.
Para cobrar a “comissão” de 25% sobre o valor das emendas, o deputado federal Josimar Cunha Rodrigues, mais conhecido como Josimar de Maranhãozinho, enviou um profissional do crime: Josival Cavalcanti da Silva, Pacovan, personagem da crônica da máfia na sertania, com negócios em combustíveis e parceiro de prefeitos na agiotagem.
“Orçamento secreto tem até ameaça de morte em disputa de propina: ‘Bala na cara!’ ”
Ele se irritou com a concorrência na cobrança de “pedágio” sobre as verbas federais destinadas à saúde em Ribamar. Despejou a ira numa mensagem de áudio ao deputado Josimar Rodrigues, na época chefe estadual do Partido Liberal.
Relatou intenção de “esclarecer” ao prefeito que a “comissão” de 1,6 milhão de reais tinha dono — e não era o tal Ebenézer, a quem se referiu como “lobista” de um senador e ameaçou de morte: “O problema é um lobista que apareceu dizendo que os valores é dele (sic). Nós temos que desmascarar ele. Já estava tudo armado para pagar para ele. Eu quero desmascarar esse cara, que tá dizendo que (a propina) é dele. Ele vai pegar uma bala na cara! Esse vagabundo… Esse cabra que eu te falei, ele tá dizendo que (o dinheiro) é dele. Que é de um senador, que é de que não sei quem…”.
Pacovan foi assassinado, baleado pelas costas meses depois. O “lobista” Ebenézer não foi identificado.
A corrupção em verbas federais, via emendas parlamentares, se tornou parte da paisagem na saúde pública. Outro caso exemplar, protagonizado pelo mesmo grupo parlamentar condenado pelo STF, aconteceu em Afonso Cunha, cidade de 6 000 habitantes a 250 quilômetros de São Luís.
Pelos registros oficiais, o dinheiro das emendas orçamentárias destinadas à saúde pelo deputado Josimar Maranhãozinho e associados do Partido Liberal teria patrocinado nada menos que 30 000 ultrassonografias de próstata. Seriam inimagináveis dez exames para cada homem adulto que atravessa o dia no cultivo de mandioca e açaí às margens do Riacho São Gonçalo.
No julgamento no STF, a defesa remeteu a culpa pela corrupção aos vícios da capital federal: “Vir para Brasília é como ter com o diabo”, alegou um dos advogados, citando verso de Renato Russo em Faroeste Caboclo. O juiz Flávio Dino, ex-governador do Maranhão (2015 a 2022), retrucou com ironia: “Então, veja, o papel do tribunal é ser um pouco exorcista desses diabos que andam por aí”.
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Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987





