Desconfiança
Se estava ruim, piorou: para 91,5% dos brasileiros está ‘tudo dominado’ na política e na Justiça
A crise é de confiança nas instituições. Nove em dez brasileiros dizem acreditar que “organizações criminosas” agora controlam áreas-chave dos sistemas político e judicial do país. É juízo quase unânime entre mulheres (98%) e predominante entre homens (84%), mostram pesquisas do pós-Carnaval como a da AtlasIntel em parceria com a agência Bloomberg.
Se estava ruim, piorou. O senso de que está “tudo dominado” avançou nos últimos doze meses. Entre dois verões, ampliou-se (de 85,5% para 91,5%) a avaliação de que núcleos de decisão do governo, do Congresso e do Judiciário quase sempre estão enlaçados em redes de influência privada.
Corrosão da credibilidade institucional não é novidade na paisagem política nacional — está expressa na imagem negativa (81%) de líderes políticos como os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. Confirma-se na longa e persistente rejeição eleitoral (mais de 50%) a Lula e a representantes do clã Bolsonaro.
A decomposição tem sido alentada no acúmulo de obscuras transações misturando negócios e política, contrárias ao interesse público, como demonstra a série de casos criminais recentes — entre eles, compra de maioria nos plenários do Congresso; corrupção em contratos da Petrobras; desvio de verbas federais via emendas parlamentares; e, agora, a fraude bilionária do Banco Master que envolve integrantes da cúpula dos Três Poderes. Deriva da noção de impunidade disseminada no topo da elite do serviço público, com ou sem mandato. Essa turma julga supérflua, eventualmente de mau gosto, e, por isso mesmo dispensável, a obrigação constitucional de prestar contas ao público pagante. Essa circunstância pode explicar por que, em diferentes pesquisas, cerca de dois terços dos eleitores dizem acreditar ser vital a redução na corrupção no Judiciário e no aparato policial para a queda na criminalidade e na violência urbana.
O descrédito é evidente. Metade do eleitorado tem indicado certeza sobre a falta de compromisso dos políticos com a melhoria dos padrões de vida da população. Como exemplo, cita-se a segurança pública. Em geral, ressalta-se, exploram o medo comunitário com objetivos eleitorais — moldura onde cabem todas as definições dos dicionários para palavras como hipocrisia, falsidade, dissimulação, fingimento e desonestidade.
“Se estava ruim, piorou: para 91,5% dos brasileiros está ‘tudo dominado’ na política e na Justiça”
Nesse clima, o escândalo do Master tem efeito acelerante na crise de credibilidade do Supremo Tribunal Federal. A hipertrofia do STF não é circunstancial, resulta de uma progressiva ampliação de seu espaço de poder, desde a redemocratização, com o acúmulo de funções de tribunal constitucional, de recursos e de primeira e última instâncias da elite política.
A novidade é que os juízes parecem surpresos e perdidos diante da extensão dos laços do caso Master ao plenário do tribunal. Seguem sem rumo, tropeçando numa sucessão de erros individuais, sempre em nome da autodefesa institucional.
Pode parecer esquisito — e é mesmo —, mas eles se voluntariaram para figurar como alvo principal na campanha. Agora, gostem ou não, devem permanecer expostos em praça pública, não pelas virtudes institucionais em defesa da democracia, mas como vilões numa trama de captura do Estado por interesses privados.
Símbolo de uma estrutura burocrática das mais caras do planeta, o STF virou enredo da temporada eleitoral. Criticá-lo e levar ao palanque a promessa recorrente de processos de impeachment contra integrantes do tribunal pode render votos, mostra pesquisa do consórcio Meio-Ideia: quatro em cada dez eleitores se dizem predispostos a votar em candidatos ao Senado que defendem o impeachment de juízes do Supremo.
Presidente do STF, Edson Fachin tenta negociar internamente para atenuar divisões e chegar ao final do ano com um código de ética válido para 19 000 juízes e 278 000 servidores. Numa reunião com chefes de noventa tribunais, argumentou: “Não temos o voto. Temos a razão da lei. E exatamente por isso não podemos, jamais, abrir mão de fundamentar nossas escolhas, de justificar nossas decisões. Elas devem ser escrutinadas amplamente, com toda a transparência. Sem a dialética do debate, a confiança no Judiciário se desfaz — e sem confiança, não há autoridade que resista”.
Tem razão o professor Marcus André Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, quando diz que não há precedente de caso em que a legitimidade de uma corte constitucional seja, simultaneamente, afetada por contestações políticas, conflitos com outros poderes e escândalos de corrupção — como o do Master.
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Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986







