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Trump cria protetorado com regime ditatorial na Venezuela e redesenha mapa da América Latina
Donald Trump redesenhou o mapa político da América Latina, lançou a versão de ditadura 2.0 na Venezuela, sem prazo de validade, e, num gesto imperial, empurrou o Brasil de Lula e o México de Claudia Sheinbaum para uma espécie de limbo diplomático. Provocou o aumento da tensão nos governos latinos. Os 33 líderes regionais não conseguiram se entender nem mesmo sobre um anódino comunicado conjunto de afirmação da independência de seus países, depois da invasão, bombardeio de localidades (Caracas, Miranda, Aragua e La Guaira) e sequestro do ditador venezuelano Nicolás Maduro, agora julgado em Nova York como um “padrinho” do narcotráfico sul-americano.
A outrora exaltada “zona de paz” do Atlântico Sul foi demolida por Trump em três horas, com mísseis e drones camicases, numa operação planejada e ensaiada segundo o roteiro do governo Barack Obama para o assassinato de Osama bin Laden, chefe da Al Qaeda, catorze anos atrás, no Paquistão. Trump achou que o ditador venezuelano valia tanto quanto o arquiteto dos ataques terroristas de 2001 em Nova York e Washington: ofereceu 50 milhões de dólares de recompensa por Maduro, equivalentes ao prêmio (atualizado) pela cabeça de Bin Laden. Não se sabe quem foi (ou foram) o(s) informante(s) premiado(s), mas está evidente que em Caracas, assim como em Abbottabad, colaboradores locais foram decisivos para a ação militar.
Testemunha de dois conflitos mundiais, William Faulkner escreveu: “Em tempos de guerra se vive o presente, o ontem já se foi e o amanhã talvez nunca venha”. A incerteza presente e dominante nos governos latino-americanos, neste início de 2026, cabe numa pergunta: quem será o alvo seguinte? O socialista chileno Gabriel Boric, presidente em fim de mandato, arrisca uma resposta: “Hoje é a Venezuela, com a desculpa do narcoterrorismo e a intenção declarada (por Trump) de controlar seus recursos (minerais). Amanhã poderá ser qualquer outro país, com qualquer outra desculpa”.
“Trump cria protetorado com regime ditatorial na Venezuela e redesenha mapa da América Latina”
O alto custo político doméstico para Trump sugere ser pouco provável a intensificação da escalada militar na região, mas são imprevisíveis os efeitos colaterais da conversão da Venezuela em protetorado dos EUA. É provável que o controle naval e aéreo sobre as exportações venezuelanas de petróleo induza algumas economias caribenhas ao colapso e amplie a chance de mudança de regime em Cuba, que reconheceu a morte de 32 dos seus agentes de espionagem encarregados da segurança de Maduro.
Pelo efeito simbólico, o eventual resgate de Cuba para a órbita de influência de Washington, 66 anos depois da revolução, ajudaria o senador Marco Rubio, secretário de Estado, na corrida republicana pela sucessão de Trump em 2028. Descendente de imigrantes cubanos estabelecidos no sul da Flórida, Rubio agora atua com a desenvoltura de vice-rei para a América Latina. É autor do pacto de reciclagem da ditadura na Venezuela sob a presidência de Delcy Rodríguez, ex-vice de Maduro, apoiada pelo irmão Jorge no comando da Assembleia Nacional chavista. É de Rubio a melhor síntese do projeto de hegemonia dos Estados Unidos: “O hemisfério é nosso”.
Traduz a ambição de Washington de bloquear o avanço da China no continente e, principalmente, na América do Sul. A opção pelo alinhamento automático à Casa Branca deixou governos em confronto aberto e derivou até num clima de tensão pessoal crescente entre líderes como Lula e Javier Milei.
Eles nunca esconderam a mútua antipatia. Antes do Natal, já haviam divergido em público sobre a presença da força-tarefa dos EUA no Atlântico Sul. No fim de semana de comoção com o ataque à Venezuela, o presidente argentino resolveu debochar do brasileiro. Celebrou o sequestro do ditador venezuelano publicando um vídeo da reunião do Mercosul em que discursou apoiando a “pressão” militar dos EUA contra a ditadura “atroz e desumana do narcoterrorista” Maduro, sob o olhar de óbvia reprovação de Lula. O vídeo termina com uma fotografia de Lula abraçado a Maduro, ambos sorridentes, com Milei gritando “viva la libertad, carajo”.
Washington investiu pesado na Argentina de Milei, ajudando-o a vencer a eleição legislativa de dezembro. Em Brasília, prevê-se interferência de Trump nas eleições gerais de outubro, quando Lula deve tentar a reeleição. É notável, da Casa Branca à Casa Rosada, passando pelo Palácio do Planalto, que ninguém tenha se preocupado em pressionar o condomínio ditatorial de Caracas pela libertação dos 863 presos políticos — muitos torturados, sessenta desaparecidos.
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Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977
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