Alto custo
Lula criticou Bolsonaro por gastar 300 bilhões para se reeleger. Está gastando 500 bilhões
A seis meses da eleição, Lula planeja uma nova rodada nacional de renegociação de dívidas. O governo assumiria o risco de inadimplência de famílias, indivíduos e micros, pequenos e médios empresários. “A política está sendo bem desenhada”, diz Dario Durigan, novo ministro da Fazenda. É boa notícia para oito em cada dez famílias superendividadas, e, também, para o universo de pessoas com o próprio negócio. São vítimas, em parte, da asfixia econômica provocada por uma das mais altas taxas de juros do planeta — por ironia, fomentada pelo descontrole governamental sobre as contas públicas.
Com outra rodada de subsídios estatais aos devedores, Lula estabeleceria um novo padrão de coincidências econômicas no calendário político: prometeu o patrocínio do Tesouro à renegociação de dívidas na campanha de 2022; entregou o Desenrola no ano da eleição municipal (2024); vai lançar a versão mais abrangente do programa nesta temporada eleitoral, sob pressão de uma rejeição alta e contínua à sua reeleição (acima de 50%), retratada nas pesquisas nos últimos quinze meses.
O Desenrola 2.0 vai desenrolar a vida de muita gente e pode dar um alento ao candidato Lula. Mas será efêmero como foi na primeira versão, porque o país segue aprisionado na armadilha de baixo crescimento em que patina há cerca de quatro décadas. É parte das debilidades da economia nacional realçadas pela guerra no Oriente Médio.
O principal efeito colateral desse conflito é a crise de energia, com menor oferta e escalada nos preços de petróleo, gás e derivados. No cenário nacional de juros recorde, reflexo praticamente inevitável será a redução do fôlego da economia em comparação com 2025.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê para este ano eleitoral um avanço modesto do produto interno bruto (de 1,5%), muito abaixo do nível do ano passado (2,5%). Se confirmado, o atual governo terminaria com resultado irrelevante (2,6%) no histórico do crescimento desde a redemocratização. Lula estaria ao lado de governantes que fracassaram no resgate dos brasileiros da armadilha da baixa renda.
“Lula criticou Bolsonaro por gastar 300 bilhões para se reeleger. Está gastando 500 bilhões”
O Desenrola 2.0 é produto da intuição eleitoral de Lula, com planejamento e organização da campanha, num discreto comitê instalado no Palácio do Planalto, encarregado da sincronia de iniciativas de marketing e publicidade — custa mais de 400 milhões de reais, segundo a oposição. É o núcleo responsável por embalar anúncios das gratuidades ao eleitorado pobre (casa própria, luz e gás de cozinha grátis, entre outras ofertas governamentais). O público-alvo é majoritário nos mapas eleitorais e significativo em todos os segmentos — o programa de botijão de gás doado pelo governo foi triplicado e deve alcançar 16 milhões de residências em 2 900 municípios.
Não é pouco numa campanha presidencial, mas não é tudo. Algumas coisas precisaram ser adiadas. Gastos extraordinários com a guerra (subsídios ao diesel, ao gás e ao querosene de aviação, entre outros) obrigaram Lula a suspender novas ofertas de gratuidades, como tarifa zero no transporte público nos maiores colégios eleitorais.
O governo ultrapassou a marca de 95 milhões de pessoas beneficiárias de programas sociais. Significa que, hoje, 45% da população brasileira depende do Estado para sobreviver. Há 63 milhões de adultos entre os dependentes do auxílio estatal. Eles representam 37% do eleitorado, segundo os dados oficiais.
A multiplicação dos gastos não está concentrada na ajuda estatal aos pobres, mas tem peso específico na decisão de voto. O choque de Lula e assessores é com a falta de resposta positiva — ou seja, de reconhecimento — desses eleitores nas pesquisas, nas quais a avaliação do presidente e do governo tem maioria oscilante entre “ruim” e “péssimo”. Aparentemente, querem mais, algo como autonomia e sustentabilidade econômica.
Não falta dinheiro, ao contrário. Lula atravessou o mandato criticando a “herança” do adversário Jair Bolsonaro: “Sabe quanto de recurso foi colocado para tentar ganhar (em 2022)? Trezentos bilhões de reais… Comprando voto, dando dinheiro para taxista, para motorista, distribuindo dinheiro, fazendo isenção, fazendo desoneração. Perdeu, perdeu e não volta mais!”.
Agora, Lula está apostando cerca de 500 bilhões na tentativa de se reeleger, segundo a calculadora de operadores do mercado financeiro, como Luis Stuhlberger, da Verde Asset. Ainda assim, é um candidato sitiado por incertezas.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990







