A opção nuclear
Governo e Congresso repensam a política externa com base na prioridade à defesa
Mudou a perspectiva da política externa brasileira. É efeito de um retrocesso civilizatório global, o desmonte do sistema de regras de convivência pacífica entre nações construído a partir da Segunda Guerra Mundial.
Governo e Congresso mantinham há algum tempo um debate tímido sobre a necessidade de revisão de prioridades na segurança nacional. O cerco militar e, depois, a invasão à Venezuela, cuja fronteira com o Brasil se estende por 2 000 quilômetros na selva amazônica, tornaram essa discussão mais ampla e efetiva. Percebe-se em Brasília, desde então, uma preocupação em repensar o rumo das relações externas do Brasil para adaptá-las ao novo mundo sem regras que está aí.
Prevê-se tratar a defesa nacional como política de Estado, para preservar o país autônomo e com relativa influência regional. Haveria privilégio à opção nuclear, com garantias orçamentárias para investimentos de longo prazo em plataformas tecnológicas de uso duplo, civil e militar. Foi isso o que Lula assegurou aos chefes da Defesa e das Forças Armadas numa longa reunião no Palácio do Planalto em 15 de janeiro, doze dias depois do bombardeio dos Estados Unidos aos quartéis da região metropolitana de Caracas.
Depende, é claro, de ação coordenada com o Congresso, onde não parece haver resistência. Em novembro, por exemplo, governo e oposição uniram-se para garantir financiamento ao reequipamento militar. Aprovaram 1 bilhão de dólares anuais, fora dos limites orçamentários, durante os próximos cinco anos. O projeto de lei foi apresentado pelo Partido Liberal de Jair Bolsonaro e relatado pelo Partido dos Trabalhadores de Lula. Esquerda e direita se juntaram e deram aval unânime na Câmara e no Senado.
Antes do Natal, governo e oposição somaram votos na Câmara para retirar o Brasil do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares, oito anos depois da adesão. “No mundo em que nos encontramos hoje, não podemos abrir mão de recorrer ao desenvolvimento de capacidades nucleares, não de caráter ofensivo, mas para defesa e dissuasão”, diz a justificativa construída pelo deputado relator Luiz Philippe de Orleans e Bragança, do Partido Liberal, em parceria com o Itamaraty. Nela ressalta-se que, em documentos recentes sobre políticas de defesa, o Congresso “tem entendido que o Brasil não deve assumir novos compromissos no campo da não proliferação”. O veto da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional tende a ser subscrito pelo plenário da Câmara.
“Governo e Congresso repensam a política externa com base na prioridade à defesa”
São evidências de que Brasília parece convergir para alterações relevantes nas políticas externa e de defesa nacional. Seria movimento inédito nas últimas quatro décadas de regime democrático. “Mudança” é uma das palavras mais sedutoras da política. Evoca os planaltos ensolarados do futuro e promete absolvição pelos pecados passados, escreve o jornalista britânico Philip Stephens. No caso da opção nuclear brasileira, os erros se acumularam durante décadas e custam cada vez mais caro.
Alguns programas estão em desenvolvimento laboratorial há décadas, asfixiados na intermitência de financiamento estatal porque nunca foram reconhecidos como prioritários. É o caso dos projetos de enriquecimento de urânio para produção de energia e da construção de submarinos nucleares com armamento convencional. Pior é a situação da Eletronuclear, suas usinas de eletricidade e empresas-satélites como a Nuclep. Compõem um mosaico calamitoso de prejuízos bilionários que se multiplicam mensalmente. É incontornável a resolução do destino do programa nuclear legado pela ditadura.
Mais relevante, porém, é a questão política. No Congresso já transitam propostas radicais, como a da retirada do Brasil de todos os tratados internacionais de não proliferação de armas nucleares já assinados. O governo acha que “vamos precisar da tecnologia nuclear para a defesa nacional e da soberania”, nas palavras do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Isso exigirá a compreensão dos governantes para o novo mundo sem regras, tem repetido em artigos o embaixador Celso Amorim, assessor internacional de Lula. Nesse novo mundo, argumenta, “todos estamos sob ameaça, que será tanto maior quanto os recursos que detivermos: petróleo, minerais críticos, terras-raras, capacidade energética”.
A questão não é só o que fazer, mas como fazer. A opção nuclear sempre tem alto custo político. O Irã é exemplo extremo: virou pária mundial.
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Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





