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‘Ted Lasso’ extrai humor afiado de choque cultural no esporte

Na série, quando um caipira do Kansas vai treinar um time londrino, a torcida e os jogadores se revoltam — e os bons sentimentos triunfam

Por Isabela Boscov Atualizado em 4 jun 2024, 13h20 - Publicado em 23 jul 2021, 06h00

Em 2013, de posse dos direitos de transmissão do campeonato da Premier League, a primeira divisão do futebol britânico, a rede NBC bolou uma campanha publicitária de teor, digamos, educativo: dado que os americanos consideram exótico o futebol que o resto do mundo joga (e que eles insistem em chamar de soccer), a emissora veiculou uma série de filmetes que mostravam o choque cultural de um técnico do interiorzão do Kansas que, chamado a comandar um time inglês, espanta-se com as regras excêntricas da modalidade — por exemplo, o meio-tempo, o empate, a meta de enfiar a bola no gol em vez de jogá-la para fora do estádio e, o mais incompreensível, o fato de que trombar propositalmente com o adversário ou agarrá-lo gera penalidade. Ted Lasso, o personagem interpretado nesses comerciais pelo comediante Jason Sudeikis, era, além de sem-noção, um bocado falastrão. A primeira qualidade está encantadoramente preservada na série da AppleTV+ que leva o nome dele. Já os atributos menos louváveis foram substituídos por doçura genuína, decência a toda prova e um otimismo tão tenaz que, não fosse a atuação afinada de Sudeikis, poderia ser irritante, mas resulta absolutamente cativante — e nesta segunda temporada, já disponível na íntegra, mais necessário que nunca, já que o time de Lasso, o londrino (e fictício) Richmond, sofre um baque desses que cortam o coração do torcedor e demolem o moral dos jogadores.

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Com vinte indicações ao Emmy deste ano, Ted Lasso (Estados Unidos, 2020-2021) sabe tirar graça tanto da ignorância do treinador com o jogo — a qual a torcida ridiculariza com franquezas impublicáveis — quanto da colisão entre a ingenuidade caipira e o cinismo bretão. Mas a bola dentro de Sudeikis e do criador Bill Lawrence, de Scrubs, é ancorar esse conceito em uma dinâmica de relacionamentos tão crível e autêntica que, mais até do que a comédia, são os pequenos dramas que ressoam aqui. Graças, também, à excelência do elenco: entre muitos outros, Hannah Waddingham como a dirigente que quer enterrar o Richmond para se vingar do ex-marido, Brendan Hunt como o estoico segundo-em-comando, Brett Goldstein como o craque em fim de linha e Juno Temple como uma influenciadora adorável (na teoria, pelo menos, isso existe). Ao encampar os clichês e então ir além deles — bem além —, Ted Lasso nada contra a maré da ironia e faz algo tão antigo que parece até novo: encontra todo o humor que há no bom caráter. É um golaço.

Publicado em VEJA de 28 de julho de 2021, edição nº 2748

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