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Paul Verhoeven provoca mais do que entrega no profano ‘Benedetta’

Novo filme do holandês resgata caso de lesbianismo em convento da Itália renascentista

Por Isabela Boscov Atualizado em 4 jun 2024, 12h22 - Publicado em 15 jan 2022, 08h00

Nascida em 1590, filha única de um casal de posses, e internada em um convento da cidade toscana de Pescia desde os 9 anos, a freira Benedetta Carlini ocupa um lugar de certo destaque na crônica do catolicismo: seu romance com a noviça Bartolomea Crivelli foi um raro caso de lesbianismo entre religiosas a ser documentado — ricamente documentado, aliás, graças à curiosidade aguçada dos clérigos que, entre 1619 e 1623, inquiriram e investigaram a freira (que chegou a ser abadessa do mosteiro) para decidir se as suas visões místicas eram genuínas ou fruto de influência diabólica (o affair entre Benedetta e Bartolomea foi, claro, usado como peça de acusação). Encontradas por acaso em um arquivo, as transcrições do inquérito serviram de base a um interessantíssimo ensaio da historiadora Judith C. Brown. O qual, por sua vez, serve agora de base a Benedetta (Holanda/França/Bélgica, 2021), a nova e paradoxalmente inerte provocação do holandês Paul Verhoeven que já está em cartaz nos cinemas.

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A Arte de Paul Verhoeven

Verhoeven é o mais bem-disposto iconoclasta em atividade no cinema, sempre pronto a afrontar mais um tabu (em seu último grande filme, Elle, de 2016, Isabelle Huppert fazia um jogo sexual com seu estuprador) e a pisotear noções de bom gosto e propriedade. Na sua melhor forma, como em Elle, A Espiã ou Robocop, é capaz de verdadeiramente abalar aquelas convicções que se recebem e não se examinam. Às vezes, porém, suas táticas — choque, sátira, ridículo, ultraje — derivam para um fim em si mesmas. É o caso de Benedetta, que instiga e diverte com sua levada “Showgirls no convento” só até certo ponto — o ponto em que não apenas perde de vista a demanda erótica reprimida das visões luxuriantes da freira com Jesus e dos estigmas que, crê-se, ela infligia em si mesma, como deixa de equacionar essa sublimação com as questões tortuosas de fé. Quando Benedetta (Virginie Efira) se realiza carnalmente com Bartolomea (Daphne Patakia) e aprende a tirar proveito de suas manifestações místicas, o diretor a embriaga com o poder e o sexo e faz dela uma déspota, numa guinada abrupta — e de recorte misógino — que não presta favores à atuação dura da belga Efira. Verhoeven aspira à transgressão, mas é sintomático que o mais comentado em Benedetta seja seu truque mais barato — o do uso muito heterodoxo que a freira e a noviça fazem de uma pequena estátua da Virgem Maria.

Publicado em VEJA de 19 de janeiro de 2022, edição nº 2772

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